Questões que aliam o cinema ao papel de catalisador de transformações sociais não são novas. Na história das cinematografias, desde as vanguardas russas, o Estado já identificara no cinema o potencial ideológico criado pela junção da imagem em movimento com as narrativas dramáticas.
Mas foi a partir da década de 1960 que o cinema mundial, e em especial o brasileiro, se redescobriu como agente de transformação social. O CPC - Centro Popular de Cultura tem importância fundamental nesta história. Foi em comemoração pelos seus vinte e cinco anos que jovens cineastas decidiram fazer do audiovisual um veículo de discurso ideológico. Assim nasceu o emblemático "Cinco vezes favela", uma espécie de ritual de iniciação para as carreiras de Carlos Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirzman, Miguel Borges e Marcos Farias.
O filme carregava em si um olhar quase ingênuo de uma favela idílica, onde a violência dava lugar à malícia e as infrações mais graves eram arrancar couro de gato para fazer tamborim. Mas como disse o próprio Caca Diegues, "o mundo era outro". O filme ganhou o mundo e marcou definitivamente o cinema brasileiro, dando início ao que viria a ser o Cinema Novo, porém sem alcançar o seu objetivo primordial: o de transformar a realidade. Aquele olhar de jovens estudantes da classe média carioca não transcendeu o território da poesia como eles sonhavam, e os ideais de uma realidade mais justa ficaram restritos à sala escura do cinema.
Hoje, quase quarenta anos depois, aquele projeto alcançou finalmente o seu objetivo, o de dar voz á periferia e mostrar de que matéria é feito este território que ganhou o centro do mundo sem sair da margem da sociedade.
Cacá Diegues retomou o caminho do morro, mas desta vez guiado por sete jovens que vivem esta realidade. E assim nasceu "5 X Favela, agora por nós mesmos", longa que também tem cinco episódios como o original, dirigido por Manaíra Carneiro, Wagner Novaes, Luciana Bezerra, Luciano Vidigal, Cadu Barcelos, Cacau Amaral e Rodrigo Felha.
Finalmente, se cumpriu a missão transformadora à que aquele cinema se propôs. Estes jovens diretores contaram suas histórias, escritas, produzidas e filmadas por jovens como eles, que habitam o cotidiano da periferia. E poeticamente, a realidade se deixou transformar.
Por Roberta Canuto







