Terra Estrangeira não é o primeiro longa metragem de Walter Salles, mas é certamente o que aponta qual foi a sua escolha diante da encruzilhada criativa.
Se para muitos artistas a opção diante do entroncamento estilístico é uma armadilha, para Walter, os ventos sopraram para a estrada mais fértil.
Com Terra Estrangeira ele inaugurou de fato a sua história no cinema, um filme que é pura poesia em preto e branco, um sofisticado exercício sobre a às vezes fascinante, mas quase sempre desconfortável posição de estrangeiro no mundo.
Um road movie que cruzou o Atlântico, encurtando a fronteira frágil e histórica entre a pátria mãe lusitana e a jovem e rebelde “colônia” brasileira. O fotograma do navio encalhado em uma praia e os acordes de Vapor Barato de Gal Costa na viagem final do filme são momentos emblemáticos do cinema brasileiro recente.
Em 1998, com Central do Brasil, Walter aportou o seu cinema no coração do Brasil, mais uma vez solidão e solidariedade são sentimentos que guiam os personagens em suas jornadas. O belíssimo e delicado trabalho do diretor conduzindo o elenco rendeu ao filme todas as merecidas láureas que recebeu. Um trabalho sensível, embebido de referências cinematográficas do Cinema Novo ao neo-realismo italiano, passando pelo cinema independente norte-americano. Central do Brasil fez de Walter Salles um diretor de merecido prestígio internacional.
Filmes como Abril despedaçado e O primeiro dia não são propriamente road movies, mas seus personagens em permanente movimento fazem do deslocamento o fio da narrativa.
Em 2004 Walter botou novamente a câmera na estrada, e criou o belíssimo Diários de motocicleta. Um registro comovente e sensível da formação do mito Che Guevara. O filme exala liberdade, e mais uma vez, entre os sentimentos preponderantes, está a solidariedade.
Agora Walter Salles se prepara para filmar a bíblia dos road movies, a obra que regou a semente do espírito da contracultura, fazendo estrada a tradução da liberdade. On the road foi um marco transformador, Jack Kerouac apresentou ao mundo um livro de leitura obrigatória para quem quiser entender o espírito da juventude. Lançado em 1957 ele mantém o seu frescor original. Talvez se as gerações de leitores do livro não se renovassem o mundo hoje fosse mais chato. O filme deverá ajudar a preservar este sopro, que quem conhece a estrada sabe como é transformador...
Por Roberta Canuto






