As paisagens vão ficando para trás, e na tela surgem cidades, vilarejos, e personagens que vivem à deriva. Assim é o cinema de estrada, um gênero que é a mais pura tradução da liberdade.
Se para a literatura a semente plantada pela geração beat representou um passaporte para a estrada, no cinema esta vontade estética que ganhar a paisagem e se incorporar a ela veio bem antes.
Por aqui o cinema brasileiro embarcou nesta aventura e fez dos filmes de estrada um caminho que vai de encontro ao público. Pelo retrovisor dos nossos fotogramas fomos deixando poeira no caminho, principalmente na cinematografia moderna, com equipamentos mais leves e idéias idem, afinal, esses filmes são normalmente incorporados pelo doce espírito da liberdade.
Na cinematografia recente, nossos diretores caíram no mundo a pé, de carro de trem ou de bicicleta. Foi o que fez Vicente Amorim em O caminho das nuvens, quando narra a lírica viagem de uma família sertaneja em direção ao sul do país a bordo de suas magrelas.
Cacá Diegues fez de um dos melhores trabalhos de sua trajetória um road movie. Em Bye bye Brasil, ele revela a radiografia de um Brasil que começava a encurtar as distâncias entre o norte e o sul através da televisão.
Jorge Bodanzky e Orlando Senna também fizeram da estrada uma ferida aberta das contradições brasileiras, pela paisagem particular do norte do país, em Iracema uma transa amazônica.
Em 2004, Sérgio Rezende traçou um roteiro poético pelo interior do Brasil contando a historia de um comediante que parte em busca de um amor do passado no longa Onde Anda você.
Mas definitivamente, o sertão tem sido a rota preferida dos nossos diretores estradeiros. Lírio Ferreira fez a tela de cinema ficar mais árida com o pó da estrada, já no seu primeiro filme, O baile perfumado, explorando as paisagens do sertão na companhia do bando de Virgulino Ferreira. Em Árido Movie, ele repete esta viagem, agora com tons autobriográficos com um elenco encabeçado por Selton Mello.
Marcelo Gomes conquistou o Brasil em sua ode à amizade com o filme Cinema aspirinas e urubus. A viagem dele pelo nordeste se repetiu revezando a direção com Karin Ainouiz, no belo e poético Viajo porque preciso, volto porque te amo, um dos filmes mais originais e inventivos do cinema brasileiro recente. Com forma de documentário e narrativa de ficção, o longa reinventa os road movies pelo olhar de um personagem do qual só ouvimos a voz. Solidão, perda e melancolia são os companheiros de viagem deste longa que coloca o coração no mapa da sala escura.
Por Roberta Canuto





