Mara Mourão é roteirista e diretora renomada, mas também um ser humano sem precedentes. Quando conversamos, a diretora estava prestes a sair para a estréia de seu filme no Cine Odeon (cinema histórico e importante no Centro da Cidade do Rio de Janeiro), o que mais nos chamava a atenção era obviamente a ansiedade. Mas existia um frisson por um motivo diferente dos quais estamos acostumados a ver, não era pela recepção da crítica, mas pelo o quanto o filme “Quem Se Importa” vem tocando platéias por onde passa.
Foram milhões de viagens, se adaptando aos horários e flexibilidade, ou melhor, a falta dela, na agenda de líderes humanitários e políticos espalhados pelos sete cantos do mundo. Lá ia Mara e sua equipe reduzida, mas junto com eles, além de equipamentos, ia a esperança, a vontade de mostrar pessoas que se importam com as outras. Por esse motivo é que a diretora usou a ferramenta que domina: para contar que há gente que olha pro lado, que faz da sua gana, a força para mover o outro.
O trabalho, aqui comentado, passeia por informações gráficas, animações, intervenções humanas e surpreende pela forma despojada e criativa de conduzir o espectador por universos sofridos e muitas vezes caóticos, mas nos traduz a força do homem em sua forma mais divina, em sua maneira mais digna.
Se essa é a forma como o cinema transgride e faz com que Mara conte com um olhar clínico sobre a vida de quem pensa em um mundo melhor, então é por esse caminho que o cineasta se torna instrumento de sua arte. A vocação se torna necessária para que a indignação tenha voz. Através da câmera, a artista se surpreende com a própria emoção na captação e como é simples e notória em qualquer manifestação artística, quase como uma videoarte em que a obra só se preenche, chega ao seu destino quando acontece em seu espectador, o filme de Mara só termina quando, aos chegarmos em casa, pensamos no que somos nós e o que estamos deixando para o mundo.






