O diretor pernambucano Kleber Mendonça fez um caminho pouco convencional no cinema. Começou fazendo filmes, foi fazer crítica de cinema e depois retomou a fazer filmes, o que por outro ponto de vista pode ser uma mesma coisa, afinal Rogério Sganzerla, François Truffaut e Jean-luc Godard já faziam cinema com uma máquina de escrever ha tempos. Para falarmos sobre esta e outras questões convidamos o diretor de Vinil Verde, Eletrodoméstica e Recife Frio para um passeio pela Recife registrada pelo cinema.
Fizemos uma “road-matéria” pelas ruas da cidade, começamos gravando dentro de um carro em movimento pela avenida à beira mar que liga as praias de Pina e Boa Viagem. A primeira parada foi em uma pitoresca placa de alerta contra tubarões. Comuns na orla de Recife, estas placas são para nos lembrar que sim, é realidade, o predador ataca nas águas quentes e verdes da cidade. Esses avisos espalhados pelas areias e calçadas de toda a orla viraram um símbolo da cidade, e é claro foram parar no cinema, em filmes como Deserto Feliz, de Paulo Caldas.
Aproveitamos a nossa viagem metalingüística para falarmos sobre a cidade e sobre como ela tem se transformado. Sutilmente o cinema feito por Kleber discorre sobre estas mudanças nos aspectos arquitetônicos e, sobretudo humanos de Recife. Seu primeiro longa-metragem, O Som ao Redor, irá trazer uma boa dose desta memória afetiva sobre o seu olhar sobre a cidade em mutação.
Seguimos pela orla até o final da avenida e passamos pelo bar/barco que foi locação de Árido Movie (Lírio Ferreira), de onde se avista a cidade e o Marco Zero, com suas imensas colunas fálicas inventadas por Francisco Brennand. Lá falamos sobre O Canto do Mar (Alberto Cavalcanti, gênio do cinema mundial) e Aitaré da Praia (de Gentil Roiz e Ary Severo, ambos representantes do Ciclo Regional).
O nosso passeio ainda nos levou para as locações de A Filha do Advogado, de Jota Soares, também representante dos Ciclos regionais. Nossa parada foi um pequeno passeio que margeia um canal de manguezais ao lado da velha prisão que hoje é a Casa de Cultura.
Terminamos nossa tarde no centro da cidade, em uma área onde se pode perceber como Recife é filha de várias culturas, no ferro das pontes e na estação construídas pelos ingleses, na gente que tem um pouco dos galegos holandeses e na arquitetura mourisca trazida pelos portugueses. Vimos o hotel que Claudio Assis filmou em Texas Hotel e mais tarde em Amarelo Manga e comemos uma canjica em uma padaria, que também tinha tudo para estar na tela, e a alma pulsante do baixo centro deixa no ar um indescritível cheiro de cinema.
Por Roberta Canuto







