Quando a Realidade inspira a Ficção
Em tempos de ficções documentais e documentários carregados de dramaturgia, é curioso pensar em filmes inspirados em fatos reais. Se analisarmos bem, a priori toda ficção é calcada na realidade, desde o roteiro, que costuma carregar experiências pessoais de quem o faz ou o encomenda, até a realização propriamente dita, que busca verossimilhança no real.
O cinema moderno encontrou no traço documental um refugio para sustentar boa parte da sua dose de verdade. O que o discurso cinematográfico é incapaz de afirmar com seus elementos, tem encontrado amparo em câmeras que captam cada vez mais, a luz, a atmosfera e o movimento do real.
Se observarmos o cinema brasileiro nos últimos 15 anos, fica difícil dissociar um hibridismo que faz das nossas ficções, cada vez mais, irmãs siamesas do documentário, algumas vezes, levando esta proximidade a experiências estéticas inovadoras e interessantes, como é o caso de Viajo Porque Preciso e Volto Porque Te Amo, de Karin Ainouiz e Marcelo Gomes, uma ficção completamente documental.
Além desta porção estética de aproximação entre o imaginário e a realidade, temos também uma grande safra de bons filmes capturados diretamente de registros factuais, só para citar temos os super sucessos: Cidade de Deus e Tropa de Elite 1 e 2, cada um a seu modo, deve boa parte do seu impacto à realidade, seja por apropriação ou inspiração.
O cinema moderno via Godard cobriu o audiovisual de um sopro vital de realidade, levando-o para as ruas e retirando-o da redoma fria e distante dos estúdios. Antes disso o neo-realismo italiano fez dos escombros do pós guerra o terreno criativo para uma dramaturgia absolutamente inovadora, e hoje, com equipamentos cada vez mais portáteis, estamos vivendo o auge desse romance entre a ficção e o real, tornado quase inviável qualquer tentativa de fronteira entre eles.




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