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08-06-11
COLUNISTA CONVIDADO - Francisco Conte


Revendo antigos fotogramas

No cinema contemporâneo, é cada vez mais freqüente notar-se a influência que os filmes clássicos exercem sobre as novas produções. Algo como se a atual cinematografia, apesar dos avanços tecnológicos, fosse impulsionada a voltar no tempo e, para poder continuar o seu trajeto, precisasse muitas vezes recorrer aos exemplos dessa filmografia passada. E, com as novas tecnologias, cada vez mais sofisticadas, muitas vezes as empregasse para recriar modelos estéticos de um cinema pregresso. A que se deve tal fato?

É difícil conseguir-se uma resposta precisa. Entretanto, vale salientar que essa tendência em reviver no cinema os seus modelos estéticos do passado torna-se muito mais freqüente na medida em que a tecnologia cinematográfica mais avança, sobretudo a partir dos anos 80 e dos exemplos que nos legou. Nesse aspecto, valeria a pena lembrar o exemplo de “Zellig” (Wood Allen, 1984) que, em plena década oitenta, de tudo faz para passar-se por um filme dos anos vinte, onde tem lugar a ação da história. Ou em “O desespero de Veronika Voss” (Fassbinder, 1982), que simula ser um filme dos anos cinquenta, com a ação tendo lugar nessa época. Ou mesmo em “E la nave va” (Fellini, 1983), cujo início nos leva a pensar num filme mudo, com todas as suas limitações impostas pela cinematografia da época em que a história se desenrola, ou seja, o ano de 1914.

Mais adiante, nos anos noventa, encontraremos procedimento semelhante em “Ed Wood” (Tim Burton, 1994) que, mesmo tratando-se de uma produção onerosa (o que nos anos cinquenta corresponderia à categoria de um filme ‘A’), escolheu traduzir-se nos moldes estéticos de um filme de baixíssimo custo, em preto-e-branco, e que em muito nos faz lembrar os filmes de Ed Wood (considerados nos anos cinquenta como filmes ‘B’, e de última categoria, ou seja, a categoria ‘Z’). E, afora isso, reproduzindo as falhas técnicas dos filmes do cineasta biografado, sobretudo em “Glenn or Glenda” (idem, 1953) e “Plano nove do espaço sideral” (‘Plan nine outer space’, 1956), mencionados em destaque no filme de Tim Burton.

Já em “Evita” ( idem, Alan Parker, 1996 ), estrelado por Madonna, a história apresenta-se como um pretenso filme épico argentino em preto-e-branco, cuja projeção é abruptamente interrompida para ser comunicada ao público daquele cinema a morte de Eva Perón. E, mais adiante, durante uma outra projeção, desta vez em caráter privado para os políticos, um pseudo documentário igualmente em preto-e-branco, mostrando a estada de Evita na Europa: na pele de Madonna, vale dizer.

É bem verdade que essa tendência de “fabricar” visuais de filmes de outras épocas, tal como que para “iludir” o expectador, não é nova. Afinal, na primeira versão de “Nasce uma estrela” (William Wellman, 1939), já se pode observar a personagem de Janet Gaynor vendo-se a si própria na tela, durante a projeção de um filme em que estaria protagonizando. Ou em “Cantando na chuva” (‘Singing in the rain’, Gene Kelly e Stanley Donen, 1952), onde personagens assistem à apresentação de um filme pioneiro do cinema sonoro e riem dos seus tropeços, típicos dos primeiros “talkies” ao lidar com as suas novas técnicas.

Entretanto, observa-se que é na década de oitenta que essa tendência se exacerba, deixando a seguir um rastro para os noventa e também para os dias que correm. Um desses exemplos, já no terceiro milênio, é “Longe do paraíso” (‘Far from heaven’, Todd Haynes, 2002), cuja ação se passa nos anos cinqüenta e, para os que já assistiram filmes do período, dá-se facilmente a reconhecer pela inspiração nos moldes estéticos dos melodramas daquela época. Em especial, nos de Douglas Sirk, como em “Tudo o que o céu permite” (‘All heaven can allow’, 1955) e “Palavras ao vento” (‘Written on the wind’, 1956). Assim, tal como nos filmes de Sirk, no de Todd Haynes as cores exuberantes da ambientação também combinam em tudo com as do vestuário dos personagens. Personagens que, a rigor, são mostrados em situações do cotidiano de uma pequena cidade americana, tal como nos filmes de Sirk. E, assim como nos filmes de Sirk, um cotidiano tão “glamurizado”, que pareceria irreal aos olhos de hoje: “datado”, “fake”, ou “over”, como muitos poderiam dizer.

Sem desmerecer Sirk, que teria mesmo Fassbinder entre os seus admiradores, certo é que no filme de Haynes essa inspiração em Sirk empresta especial efeito dramático a “Longe do paraíso”. Entre outros aspectos, para reforçar o lado sombrio da história que se esconde atrás daquele exuberante tratamento cromático, via “Technicolor”, e tão comum nos anos cinquenta.

E, assim como nos exemplos citados anteriormente, vem a acrescer novas visões sobre as épocas reconstituídas após o surgimento do cinema.


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Francisco Conte
Francisco Conte é professor de cinema há 35 anos, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e um dos precursores do movimento Super-8 brasileiro nos anos 70, premiado nos principais festivais do formato.

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