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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
16-12-10
COLUNISTA CONVIDADO - Luiz Bolognesi


Sem cultura nos bairros seremos uma eterna senzala

Julho de 1996. Depois de dormir em Nova Iorque, eu e Laís chegamos à Carolina. Entre as duas cidades do interior do Maranhão, percorremos quase 500 quilômetros de terra, levando numa picape saveiro, um projetor 16mm, uma tela de cinema e filmes brasileiros de curta-metragem.

O prefeito de Carolina nos autorizou a fazer a sessão na Câmara dos Vereadores. Divulgamos pelas ruas que margeiam o Tocantins, montamos o cinema e aguardamos o público. Um único espectador apareceu. Projetamos para ele. Estávamos há 2 mil quilômetros de casa, com o objetivo de levar cinema para os municípios que não têm. E mesmo sendo de graça, quase ninguém apareceu. Duro.

No dia seguinte, uma jovem vereadora nos explicou que quase ninguém havia ido porque naquele dia acontecia a festa de abertura da temporada de praia do Tocantins, com música, dança e quitutes. Fizemos então uma nova sessão. Desta vez, a Câmara ficou lotada, com gente sentada nos degraus. Após a sessão, aconteceu um debate acalorado.

Nesta e em outras sessões pelo interior, percebemos o quanto os brasileiros da periferia adoram novidades culturais, recebem de olhos e braços abertos, digerem, criticam, analisam, comparam. Mas é um erro dizer que sem nós, eles não têm cultura. Produzem cultura potente e original, e, por isso mesmo estão famintos por novos repertórios e conteúdos.

Essa fome de cultura das periferias é comprovada todas as semanas pelo Cine Tela Brasil. Graças à Lei Rouanet, à CCR e à Fundação Telefônica, nosso cineminha itinerante, o Cine Mambembe, se transformou em Cine Tela Brasil. Hoje, 45 pessoas trabalham todos os dias, a saveirinho virou dois caminhões que levam filmes brasileiros para serem projetados em duas salas itinerantes. Em 5 anos, foram feitas sessões em 339 cidades, para mais de 780 mil espectadores. A taxa de ocupação do Cine Tela Brasil é de 88%, enquanto os cinemas de shopping giram em torno de 30%. Isso prova a fome de cultura dos bairros.

Nessa mesma direção aponta o resultado das Oficinas Tela Brasil, que oferecem cursos gratuitos de vídeo para moradores da periferia. Para cada vaga, surgem em média, dez inscrições. Em pouco mais de um ano, os jovens freqüentadores já produziram mais de oitenta curtas. O mais importante é ver jovens da periferia produzindo vídeos como fazem samba, funk e hip hop.

Essa fome cultural também é percebida e pode ser atendida através das novas tecnologias. O portal de educação audiovisual Tela Brasil, www.telabr.com.br recebe todos os dias mais de 450 acessos de pessoas que fazem downloads de materiais e exercícios nos mais distantes bairros do Brasil.

Ou seja, é possível, divertido e barato levar cultura aos bairros. Basta mudar o foco. Comemoramos os avanços no mundo das estatísticas econômicas, quando vírgulas mudam de lugar e curvas ascendem em gráficos coloridos, enquanto nas ruas e vielas dos bairros onde mora a imensa maioria dos brasileiros, nada muda. Depois de deixar na cidade o suor que transforma as estatísticas, milhões de brasileiros são despejados todos os dias em bairros sem árvores, praças, nem espaços públicos.

Trocar o progresso imaginário das estatísticas pela humanização dos bairros que chamamos de periferia, investindo tempo e recursos é o que, no mundo real, será capaz de tirar o país da barbárie. É fácil e barato.

Luiz Bolognesi


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Luiz Bolognesi
Luiz Bolognesi é formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É roteirista e diretor de cinema. No início da carreira, escreveu diversos roteiros para vídeos institucionais. Seu primeiro trabalho autoral foi o curta-metragem Pedro e o Senhor (1996), o qual escreveu e dirigiu. Foi roteirista e co-roteirista em diversos títulos de grande expressão nacional e internacional. Atualmente, dirige e roteiriza o longa de animação Lutas - o Filme, que deve estrear em 2011. Além de fazer filmes, Luiz exibe e ensina como se faz. Ao lado da também cineasta Laís Bodanzky, Bolognesi coordena os projetos Tela Brasil (Cine Tela Brasil, Oficinas Tela Brasil e Portal Tela Brasil), que estimulam a educação e a produção audiovisual brasileiras em regiões de difícil acesso e baixa renda.

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