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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
12-11-10
COLUNISTA CONVIDADO - Cao Guimarães


CINEMA DE COZINHA

Escrever sobre o próprio trabalho sempre foi para mim uma coisa estranha. Acho que as obras devem falar por si mesmas e quem as fez tentar o mais rápido possível ficar livre delas. Ficar livre no sentido de libertá-las do provável lento e gradual processo de caduquice do autor, libertando também este na direção da feitura de novas obras. Porém é tão raro para nós, seres da “cozinha” do cinema, termos a oportunidade de juntar todos os quitutes que um dia saíram do forno e os oferecer (espero que ainda em tempo) a um público maior, para que estes, enfim, nos ajudem um pouco a entender nossa própria culinária.

Pois, como qualquer “cozinheiro”, sempre ajuntei estranhos ingredientes para formar pequenos bolinhos, com o propósito de que a digestão se realize no estômago do outro.

O cinema, assim como a culinária, precisa perfazer todo este processo, não podemos desconsiderar que fazemos filmes para que alguém os veja, e mais que isso, para que alguém reinvente o tempero através da saliva, reinvente a imagem através do líquido ocular, do prisma ocular, das veias oculares que transportam toda a informação para ser processada em um cérebro único,
personificado, individual, reinventando o filme, multiplicando-o.

A cozinha é o lugar da casa de que mais gosto, é o lugar da casa onde todas as visitas se encontram, onde, apesar do farto espaço da sala, todo mundo se aglomera. A cozinha é na casa o lugar do outro. E foi lá também onde, entre vidros de azeite, miolos de pão, geléias e farelos, liguei pela primeira vez um velho projetor de super-8 para mostrar para alguns amigos as primeiras bobagens que filmei.

A cozinha também como oficina de experimentos, liberdade de expressão que produz cheiro e saliva, felicidade fácil provida pelos sentidos.

A pia da cozinha onde me escondia debaixo, sentindo a vibração (música e imagem) dos músculos do antebraço negro de Zezé amassando farinha, maizena, manteiga e ovos com um rolo compressor de madeira. A imagem terna da palma de sua mão levando em minha boca um bocado de comida, seus pés imensos imersos em havaianas gastas indo de um lado ao outro enquanto mexia a sopa do fim de tarde. A cozinha enquanto o lugar do outro, do diferente de mim. Lugar destas primeiras impressões, destas primeiras
imagens, da constatação de que o mundo era uma coisa plural. Cozinha como lugar do exercício do afeto diário.

O cinema enquanto cozinha, esta coisa que fermenta no tempo, que irradia e potencializa uma existência, o cinema que vem de dentro de casa, da luz da tarde que brilha no azulejo, do grão de feijão que cai da peneira, cheio de presença e vida, diante dos olhos abobalhados de uma criança curiosa.

Dedico esta mostra a Zezé, aquela que abandonando garfos e facas, me pôs comida na boca pelo aconchegante côncavo de suas mãos.

*Texto escrito para a Mostra Restrospectiva “Cinema de Cozinha”, exibida no SESC SP e SESC Vila Mariana, em São Paulo. Outubro de 2008.


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Cao Guimarães
Cao Guimarães é cineasta e artista plástico, nasceu em 1965 em Belo Horizonte, onde vive e trabalha. Desde o fim dos anos 80, exibe seus trabalhos em diferentes museus e galerias como Tate Modern, Guggenheim Museum, Museum of Modern Art NY, Gasworks, Frankfurten Kunstverein, Studio Guenzano, Galeria La Caja Negra e Galeria Nara Roesler.

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