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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
17-04-14
COLUNISTA CONVIDADO - Ana Moravi


A MULHER QUE AMOU O VENTO

O cinema carrega a possibilidade de ir do corpo sentido (a visão) para o corpo social (o signo), de maneira a pensar a imagem não somente como uma reprodutora de conteúdos alienantes e massificados, mas como uma potência filosófica e estética amplificada. É uma das formas de cultivar a invenção, a ficção, a criatividade imaginativa e rememorativa, que os tempos contemporâneos condenam em nome da eficiência.

A mulher que amou o vento (2014) é uma narrativa que se inspira em signos arquetípicos e simbologias presentes no mito, transformadas em gestos e imagens que carregam diversos sentidos a partir do mínimo. Nasce de uma crença nas linguagens artísticas como instâncias privilegiadas de conhecimento e percepção do mundo. Na contramão de um desencantamento que muitas vezes afasta a imaginação em favor da razão, destitui os mitos, recua os mistérios.

Curiosa e diletante, tendo vivenciado tempos de diluição das fronteiras artísticas e de hibridismos, pensei o filme a partir de flertes com a pintura, o teatro, os quadrinhos, a dança... E de uma busca pela narrativa fantástica, que traz uma característica que me instiga: apresentar uma desestabilização de uma possível hierarquia entre real e ilusório ou real e imaginário; a estimulante dúvida se o que vemos é acontecimento não natural, erro de percepção ou fruto da nossa imaginação. Penso que o tempo dessa hesitação é um tempo bem cinematográfico.

Três forças me mobilizaram nesse processo: vontade, saudade e necessidade. Vontade de pensar sobre a imagem e seus mecanismos de representação; sobre os sentidos que a imagem carrega e que vão para além das suas formas. A ideia de que a imagem carrega algo de invisível. Como o vento, que já foi objeto de muitos imaginadores (Aníbal Machado e Joris Ivens são alguns dos bons encontros que tive em meio a essa vontade). O argumento, filmar o vento, nasce dessa vontade.

Quando a vontade estava bem pulsante, encontrou a saudade. Nesse período, Dellani Lima, paixão e parceria na arte e na vida, estava em Tatajuba, Ceará, nas filmagens do “Linz – Quando todos os acidentes acontecem” (2013) dirigido pelo Alexandre Veras. Mesmo longe, me sentia envolvida pelo universo daquela história e foi uma inspiração para pensar o vento como diferentes forças. Imersa nessa ventania de pensamentos, quando a saudade bateu forte, o amor entrou na história e encontrou o mito - Flora e Zéfiro. Nasce o roteiro e a partir daí os processos foram sendo continuamente adaptados para ser possível filmar com pouca grana, entra em jogo a necessidade. Nesse momento a produção do Dellani foi fundamental (a experiência de diversos longas, além de uma centena de vídeos feitos na prática punk do “Faça Você Mesmo”, baseada numa rede de apoios e muita inventividade).

Alegoria, simbolismo, locações naturais, família e amigos. O que mais me encantou nesse processo é que essa vontade de fazer cinema é contagiosa. Encontramos pessoas que compartilharam a ousadia de fazer um filme ‘na tora’, que se encantaram pela história, que criaram em diálogo com ela, e ajudaram a transformar o filme no que ele se tornou. Minha família foi fundamental nesse processo, são sempre uma presença muito forte de apoio, inspiração e são parte da rede de afetos que concretizou o filme. Bem como a atuação da Thaïs, as sonoridades do Miguel e a sagacidade da Maria foram determinantes e imprescindíveis para a força do filme. E o Dellani, a razão e a paixão que fizeram ele existir. Essa fábula visual é a união dessas forças e uma afirmação do cinema como antidestino.


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Ana Moravi
Nasceu em Belo Horizonte, MG, em 1980. Realizadora e pesquisadora das artes visuais. Vive e trabalha em Belo Horizonte com vídeo, cinema, música e arte-educação. Mestre em Arte e Tecnologia da Imagem pela EBA/UFMG. Participou do 30º Salão Nacional de Artes de Belo Horizonte – Bolsa Pampulha 2010-2011 (BR). Integra o coletivo Colégio Invisível. Vocalista nas bandas Madame Rrose Sèlavy, Félix Canidae, Tuca Curioso & Electrophone, Escama de Peixe.

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