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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
27-02-14
COLUNISTA CONVIDADO - Lina Chamie


“São Silvestre”, uma viagem sensorial pela cidade.

A São Silvestre é a corrida de rua mais famosa da América Latina, acontece no dia 31 de dezembro e vem carregada de emoção e carisma. É uma corrida que já esta no imaginário coletivo do brasileiro, ela representa, entre outras coisas, a passagem para o Ano Novo, tanto é que, tradicionalmente era a meia noite.

Eu morava em frente a sua linha de chegada, na Avenida Paulista. E na virada de 2009 para 2010, no dia 31 de dezembro resolvi descer para ver a chegada de perto, e surpreendentemente me peguei por duas horas vendo as pessoas, desde os atletas de ponta até o mar de gente que não para de chegar. Este instante da chegada me fascinou, é de uma emoção única, belíssimo. Neste momento todos são Deuses. Todos transcendem.

O que me motivou a fazer o filme é este instante da chegada e o que ele significa, nem tanto para o atleta profissional, mas, sobretudo para o homem comum. Também me dei conta ali, que ninguém nunca havia filmado a São Silvestre, este evento que conhecemos desde criança e que tem ainda outro componente que me fascina, a reocupação da cidade. Estes seres humanos coloridos e eufóricos tomam o lugar dos carros e invadem a cidade numa viagem pelos pontos cardeais de São Paulo, uma viagem mágica em que a cidade se curva aos atletas/pessoas.

Fiz rapidamente um projeto e saí em busca de uma produtora. E a BossaNovaFilms foi um encontro muito feliz, porque a Denise Gomes é corredora, maratonista, e se apaixonou pelo projeto. De 2010 para 2011, a gente ainda não tinha recursos pra filmar. Mas eu sugeri que filmássemos pequenininho, na raça, chamando os amigos, montando um Exército de Brancaleone. Não era ainda o longa, mas tínhamos que filmar inclusive para entender um pouco mais o evento e a relação que ele teria com o cinema. A gente aproveitou para fazer testes de câmeras, o ponto de vista do corredor, traquitanas, o passo, como correr com as câmeras, etc. O material ficou tão bom que acabou virando um curta de 18 minutos, que foi para o festival “É Tudo Verdade” em 2011. Este curta de entrevistas era já um estudo para o longa. Eu ficava ouvindo as pessoas, tentando extrair – talvez por ser filha de poeta e acreditar tanto na palavra – a descrição de uma emoção. O que nunca veio, é óbvio. Todos diziam: “Inexplicável!”. Em geral, as entrevistas esportivas vão por aí. Então, pensei: mais do que nunca, este filme tem que ser sensorial. O que importa é a emoção. Essa emoção das pessoas na hora da chegada. E portanto, no longa, eu tento mostrar a sensação do corredor fazendo a corrida pela cidade de São Paulo, reocupada, Sem palavras!

São Silvestre foi filmado na corrida de 2011, com 17 câmeras, e não é um documentário tradicional, flerta com a ficção. É um filme sensorial. Tem um ator, o Fernando Alves Pinto, que corre com uma câmera acoplada em seu corpo filmando seu rosto durante todo o trajeto. Ele é o personagem que representa o homem comum e nos mostra a geografia humana dramática do percurso.

Pode-se dizer que São Silvestre é um filme hibrido, esta filmado como um documentário e montado como uma ficção. É um filme sobre o homem e a cidade. É um filme sobre a reocupação da cidade pelo homem, é claro, não deixa de ser também sobre a São Silvestre que por sua vez representa justamente isso. É um filme sobre os sonhos, onde há o homem há o sonho, é um filme sobre o asfalto ou sobre o céu, é um filme sobre superação, transcendência.

São Silvestre é um filme que se faz na experiência do espectador através da matéria prima do cinema: Imagem e Som. É uma homenagem a São Paulo e aos corredores que representam ali um aspecto mágico de nossa existência, a possibilidade de superação e êxtase.


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Lina Chamie
Cineasta paulista nascida em 1962. Estudou música e filosofia na Universidade de Nova York (NYU). Fez mestrado na Manhattan School of Music e trabalhou no departamento de cinema da NYU. Seu segundo longa-metragem, Via Láctea (2007), foi exibido também na Semana Internacional da Crítica do Festival de Cannes 2007 e conquistou o Prêmio Casa de América no Cine en construcción San Sebastián 2006.

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