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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
14-02-14
COLUNISTA CONVIDADO - André Francioli


MOSTRA CINEMA DE SANTO: UM PANORAMA HISTÓRICO

O projeto da Mostra Cinema de Santo foi idealizado há cerca de 10 anos atrás.

Antes de encontrar a acolhida mais do que especial das cidades deCachoeira e Salvador e o grato apoio da Secult/Bahia, que viabilizaram a realização do evento entre os dias 02 e 19 de fevereiro deste 2014, a proposta buscou apoio em diversas instâncias públicas e privadas da região sudeste, sem sucesso.

Dentre as argumentações contrárias à nossa proposição, a principal delas residia no “risco” de se fazer uma mostra de filmes brasileiros dedicada a uma manifestação religiosa em particular (ou às religões de influência africana, no caso), coisa que expressaria perigosamente uma virtual adesão institucional, hipoteticamente tendenciosa e em detrimento de outras religiões, configurando um “problema ético e político”.

Ora, o caráter estapafúrdio e disfarçadamente preconceituoso de tal argumentação institucional evidencia-se quando constatamos, primeiramente, a intensidade do diálogo que o cinema brasileiro já estabeleceu – e continua estabelecendo – com as formas religiosas afro-brasileiras, coisa que esta mostra apenas parcial pretende dar a ver. Em segundo lugar, buscando ampliar o entendimento podemos observar com facilidade que a existência do candomblé, especificamente, em território brasileiro, é fruto de uma operação cultural extraordinária do povo africano em sua transcendência histórica e existencial a partir da diáspora. Sua cosmogonia, assim como os elementos de sua liturgia extravasaram e muito o espaço dos terreiros, contribuindo para um sem número de manifestações estéticas que formam muito daquilo a que nos habituamos chamar de “cultura brasileira”: música, dança, culinária, moda, medicina natural, expressões linguísticas; sem contar os elementos mitológicos, éticos e filosóficos, que marcam profundamente diversas formas de manifestação da espiritualidade no Brasil – a umbanda, com suas infinitas variações, entre elas. Suas ligações com a mística presente na capoeira e com a história do samba, dentre outras manifestações artíticas e culturais é também latente.

Cultura negra, afro-brasileira e brasileira, portanto. Por fim, a variedade com que os cineastas abordaram estas religiões ao longo da história do cinema brasileiro, incorporando livre e criativamente estes elementos em seus filmes, sejam de documentário ou de ficção, é extraordinária: narrativas políticas, tragédias históricas, retratos de gênero, dilemas religiosos e raciais; dramas sociais, filmes de terror, comédias, ficção científica, “thrillers umbandistas” e “chanchadas mediúnicas”; filmes de viés clássico e investigações de vanguarda. Ficções, animações e documentários. Por qual razão, então, não reuní-los através de um recorte histórico? Mais do que um recorte temático, acredito que esta mostra procura reunir a diversidade do trânsito formal de elementos já ocorrido entre estas religiões e nosso cinema, reconhecendo aí o veio de um potente sub-gênero cinematográfico num momento em que observamos, infelizmente no quadro social do país, tensões religiosas crescentes, fruto azedo de disputas do poder político e econômico apoiadas na intolerância e na negação do outro.

Realizando este pequeno retrospecto buscamos chamar a atenção novamente às possibilidades de um cinema brasileiro inspirado nas poéticas e representações da umbanda e da quimbanda, da jurema, do candomblé kêtu, jeje ou angola, do xangô, do tambor de mina, do batuque. E digo “novamente” pois, devido à enorme quantidade de filmes produzidos nos anos 70, a partir e em torno destas referências, ou ao menos em forte contextualização narrativa, podemos entender aí a ocorrência de um verdadeiro ciclo de – vamos chamar assim - “cinema de santo”, em todas as suas variantes, das francamente ignorantes e oportunistas às verdadeiramente dedicadas a um diálogo aprofundado com este universo. A força deste ciclo dos anos 70 teve sua expressão final, curiosamente, em coincidência com um debate promovido pela Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil, a Secneb (que à época elegeu o cinema como expressão privilegiada de documentação etnográfica, chegando ao esforço de constitituição de equipes iniciáticas, formadas a partir de dentro dos próprios terreiros), e cujas reflexões foram documentadas para a classe cinematográfica pela Revista Filme Cultura edição 40, de 1982, toda dedicada a questão da constituição de um cinema negro no Brasil. Este evento corresponde, salvo erro, ao último momento em que a reflexão acerca do diálogo entre as religiões afro-brasileiras e o cinema nacional aconteceu com força e destaque no debate cinematográfico, há mais de 30 anos, portanto.

Os primeiro contatos entre o cinema nacional e as religiões afro-brasileiros remontam de longa data, mais precisamente a partir do trabalho do diretor Luiz Saia, integrante da Misssão de Pesquisas Folclóricas capitaneada na década de 30 por Mário de Andrade, e que realizou dois documentários: “Catimbó-Babassuê”, rodado na Paraíba, e “Tambor de Mina, Tambor de Crioulo e Carimbó”, no Maranhão. Os anos 40 guardam um único e obscuro registro documental detectado, sob o título “Condomblé”, de autoria desconhecida mas com registro de exibição em 1949 em São Paulo, no extinto Cinema Esmeralda. De todo modo, a televisão na frente do cinema em volume de produção acerca das religiões afro-brasileiras, através da série “Veja o Brasil”, produzida em 16mm pela antiga TV Tupi entre 1950 e 1958. Com leque temático mais amplo, indicado pelo próprio nome, esta série documental para a televisão conta com pelo menos 11 títulos, com duração entre 2' e 8', contendo registros audiovisuais das religiões afro-brasileiras e de personagens do candomblé baiano como Joãozinho da Goméia e o antropólogo Roger Bastide (o acervo da TV Tupi foi restaurado pelo Programa de Restauro Cinemateca Brasileira - Petrobras, edição 2007). No que tange ao universo do cinema, em 1951 temos duas pontuações nesta filmografia de “filmes de santo”: “Feitiçaria”, primeiro curta-metragem do então jovem José Mojica Marins; e a obscura produção paulista de longa-metragem “Colar de Coral”, dos diretores Léo Ivanov, Silvio Michalany e Douglas Michalany, recentemente exibido na Cinemateca Brasileira em São Paulo, em cópia restaurada, e que a despeito da precariedade técnica e de um registro oscilante entre a ingenuidade e o preconceito, apresenta-se como primeiro longa-metragem brasileiro de ficção a servir-se de elementos místicos de matriz africana para estruturar sua narrativa. Ainda nos anos 50 temos o registro de outro curta-metragem documental em 35mm, intitulado “Candomblé” (1954), de autoria desconhecida. A partir do início dos anos 60, com os seminais O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, e Barravento, um projeto original do cineasta Luís Paulino dos Santos e depois terminado por Glauber Rocha (com uma consequente inversão no entendimento político e filosófico do candomblé em relação ao projeto original) essas relações desdobram-se em ecos que permanecem até os dias atuais através de inúmeras formas de expressão cinematográfica: documentários das mais variadas vertentes, animações, produções ficcionais de cunho comercial ou de marcada pesquisa de linguagem.

Assim, neste recorte fimográfico, podemos contar 4 longas e 3 curtas produzidos durante os anos 60, lançando as sementes para uma simbiose cinema-religião que se torna verdadeiramente exuberante durante os anos 70, contabilizando o impressionante número de 17 longas-metragens (dentre elas uma co-produção Brasil-França e outra Brasil-Nigéria),além de outros 23 curtas e médias-metragens produzidos em 16mm, 35mm e Super8, dentro das mais variadas propostas e formas de aproximação, diálogo e apropriação (destaca-se neste “ciclo” a figura de Nelson Pereira dos Santos como diretor e produtor, com filmes como “O Amuleto de Ogum”, “As Aventuras Amorosas de Um Padeiro”, entre outros). Rarefazendo-se ao longo dos anos 80, estas produções contabilizam na o bom número ainda de 10 longas e 13 curtas ou médias, documentários majoritariamente, partindo da continuidade nas produções da própria Secneb (“Egungun” e outros), iniciadas já em meados dos 70, até os últimos suspiros da década representados por dois documentários: “O Fio da Memória”, de Eduardo Coutinho (finalizado em 1991), e “Ori”, de Raquel Gerber, e que procuram abordar e entender o candomblé e a cultura negra a partir de uma perspectiva materialista, no sentido do antagonismo histórico entre forças sociais, econômicas e políticas que determinam o próprio processo de constituição do Brasil, sendo finalizados ambos em 89, um ano após o marco de 100 anos de abolição oficial da escravatura. Nos difíceis anos 90, década marcada por graves problemas estruturais na atividade cinematográfica, 4 curtas-metragens e 2 longas agregam-se a esta filmografia; por outro lado, e mencionando outra vez a televisão, foi na extinta TV Manchete que exibiu-se os 16 episódios da instigante série “Mãe de Santo”, ocorrida entre outubro e novembro de 1990 e que ainda hoje encontra seu público, contabilizando dezenas de milhares de espectadores por episódio dentro do youtube. Nos anos 2000 foram 7 longas (dentre eles uma co-produção Brasil-México) e 8 curtas e médias, com ¾ dos títulos realizados a partir da segunda metade da década. Neste período podemos observar, portanto, um maior número de títulos no formato de curta-metragem na direção do nosso “cinema de santo”. Por fim, entre 2010 e 2013 somam-se até agora 3 longas, sendo duas ficções e um documentário, mais 10 curtas ou médias documentais, apontando alguma regularidade no aparecimento de títulos vinculados a este universo, um sub-gênero de nosso cinema de história tão rica e prolífica quanto historicamente subvalorizado e praticamente desconsiderado enquanto tal.

A pesquisa inicial para esta mostra, feita há 10 anos, aconteceu antes da digitalização do acerco da Cinemateca Brasileira, foi realizada nas bibliotecas da ECA/USP e do Museu Lasar Segall em São Paulo (a própria biblioteca da Cinemateca estava interditada ao público) e contava inicialmente com 20 longas e 20 curtas, aproximadamente. A facilidade com que dispomos hoje para acessar as informações do catálogo desta instituição de excelência de nosso cinema – um trabalho extraordinário e da maior importância para nossa memória cinematográfica - possibilitou mais que dobrar o número de títulos levantados, permitindo agregar a este catálogo uma lista de referência desta filmografia. Em época de crise institucional gerada por disputas políticas dentro do próprio poder público, torna-se obrigatório aproveitarmos a ocasião e deixar registrada aqui a profunda preocupação da classe cinematográfica diante da situação de calamidade em que se encontra atualmente a Cinemateca Brasileira, com seu funcionamento comprometido em razão de uma crise política mal declarada, obscura e irresponsável. Que para o bem de todos o poder público tome consciência e repare a tempo o erro, pois lá se vai bem mais de um ano nisto, restituindo à Cinemateca sua vitalidade institucional e dissolvendo a crise que ele mesmo engendrou.

Como comentário adicional cabe lembrar que, para além do ambiente profissional de produção cinematográfica, a acessibilidade dos equipamentos digitais na atualidade multiplicou incomensuravelmente os registros audiovisuais de cultos, cerimônias e ritos, que abundam na internet em uma quantidade sem fim de pequenos vídeos, tanto ficcionais como documentais, embora quase sempre muito precários do ponto de vista técnico, artístico e estético. Por outro lado, é possível pensarmos que, de celular à mão, o babalorixá, a ialorixá e os próprios filhos-de-santo podem fazer hoje, sem as barreiras tecnológicas abissais da tecnologia analógica do passado, um discurso “de dentro”, em um processo absolutamente independente e de certo modo liberto da própria mediação do cinema e, por outro lado, também da antropologia.

Diante disso, levando em conta a importância que o nosso “cinema-de-santo" possui dentro da cinematografia nacional, o evento almeja recolocar em pauta a discussão acerca da representação audiovisual deste universo religioso afro-brasileiro, procurando contribuir para a reativação de um manancial extremamente fértil para a criação e reinvenção de possibilidades cinematográficas dentro do Brasil. O conjunto de filmes proposto busca contemplar títulos menos óbvios e pouco vistos, procurando descartar referências imediatas de filmes já exaustivamente exibidos, e a partir dos
quais muito já se falou a respeito: Barravento, O Pagador de Promessas, etc.

Ao mesmo tempo, o recorte procura privilegiar, além da variedade destas representações cinematográficas ao longo da história, aqueles filmes cujo universo das religiões afro-brasileiras aparece como energia motriz ou de atração para as narrativas, independentemente do viés ideológico e do grau de adesão do cineasta e/ou do próprio discurso do filme em relação à religiosidade em questão. No conjunto composto pelos filmes de longa-metragem encontramos sobretudo ficções, nas quais podemos observar um trânsito mais significativo, do ponto de vista formal, de elementos simbólicos, sensoriais, estéticos e mitológicos do âmbito religioso para o universo fílmico, constituindo um conjunto bastante diverso de propostas e abordagens. Alguns dos principais documentários já realizados em torno do tema, em que a força do registro se fazem notar, completam o conjunto. No caso da programação de curtas e médias, o documentário prevalece, pela profusão e predomínio histórico de títulos relativos ao assunto dentro do gênero.

Axé. Saravá. E uma boa mostra a todos!


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André Francioli
Idealizador e curador da Mostra Cinema de Santo.

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