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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
08-01-14
COLUNISTA CONVIDADO - Gustavo Serrate


Suco de imagens

Eu penso muito sobre a questão da “qualidade técnica da imagem” e não tenho preconceito nenhum com um trabalho de imagem “suja”, de imagem “cinematográfica” (no sentido de cinema feito com película, e a imagem detalhista das DSLRs.

Cada imagem tem seu mérito. A imagem suja do VHS, Super 8 e de outras formas de se fazer não deve nos causar repúdio, nem nos impedir de apreciar uma obra. Os cinzas, os ruídos, a falta de “qualidade” e “resolução” não são capazes de dizer se um filme é bom ou ruim. Não é a imagem que define o caráter de um filme, a imagem define uma das questões, uma escolha estética do filme. E julgar um filme negativamente por este aspecto é uma análise no mínimo pueril.
A tradicional imagem “cinematográfica” tão almejada por muitos cineastas pode ser uma armadilha. Nem sempre o filme precisa de uma fotografia belíssima para cumprir seu papel de cinema. Aliás, somente em casos específicos o requinte e a exuberância da nossa velha conhecida gramática cinematográfica vai nos ser útil. Busca-la por busca-la não é sinônimo de que seu filme terá algum mérito artístico. Muitos tropeçam neste erro, executam obras pobres, com imagem requintada, e muitos se convencem de que este requinte estético é tudo o que uma obra precisa. Bresson já nos alertava para os riscos de quem se preocupa demais com a “beleza” fotográfica. Lars Von Trier também diria que “O cinema está cansado de cinema”.

E por último, a imagem das novas câmeras digitais, com seus preços acessíveis colocaram num patamar horizontal a “questão da “qualidade”. Todos temos acesso. Todos podemos fazer um filme com imagens belíssimas, e mais uma vez o que menos importa é se suas imagens são lindas (a não ser que o fato das imagens serem belíssimas tenha alguma relevância no contexto da narrativa do seu filme). O que percebo como grande diferencial, nas DSLRs é a proximidade com a realidade, uma quebra com a “magia” do cinema, e também uma quebra com a “estilização” das imagens sujas. Com as imagens sujas, tinhamos uma visão de mundo distorcida, ou enfocada através do prisma de uma estética evidente na textura da imagem. Com as imagens “cinematográficas” tinhamos o encanto da beleza granulada, da textura mágica da película, capaz de tornar qualquer situação, qualquer pessoa, digna de ser ampliada ao tamanho de uma tela imensa. Mas agora, com a resolução limpa e monstruosa dos novos equipamentos, temos uma nova possibilidade, a de tornar a realidade excessiva, gritante.

Podemos enxergar os poros, pequenas formações de gotas de suor, imperfeições na pele, ao ponto de que quando vemos um filme de cinema adaptado para a resolução dos grandes monitores de Full HD ou 4K, perde-se um pouco da “graça”. Pensando nisso, essa tecnologia do extremo da qualidade tem outra função. A função de evidenciar o mundo, de trazer à tona a imperfeição, de evidencia-la de forma gritante. É outra estética, que exige outra gramática, que exige outra forma de fazer e pensar o cinema.

Mas no cinema, não é a qualidade técnica o nosso foco. Suas imagens podem ser sujas, granuladas, podem ser incrivelmente lindas e exuberantes, ou extremamente perfeitas e cheias de detalhes mas se espremer tem que sair suco. Tem que sair suco, senão, nem vale a pena.


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Gustavo Serrate
Brasiliense nascido em 1981, em um dia de domingo. Estudou jornalismo e cinema e hoje trabalha com produção audiovisual. A mente está sempre antenada na atividade artística, captando boas vibrações.

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