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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
21-11-13
COLUNISTA CONVIDADO - Luiz Rosemberg Filho


F A R O E S T E

O “FAROESTE” de Abelardo de Carvalho, tão brasileiro e universal como “Grande Sertão Vereda”, de Guimarães Rosa, nasceu com asas para revelar abismos de nossos interiores, de nossa natureza e de nossas cavernas.

Superando patas de cavalos, rodas de diligências, tiros e toda arrogância dos faroestes americanos que destroçaram nosso imaginário, Abelardo vai pelo caminho inverso de Hollywood, vagando com o seu personagem Luís Garcia entre a angústia e a paisagem estonteante, muito bem fotografada. Luís é a afirmação de uma vontade enlouquecida da razão. Portanto, um registro poético da terra com os personagens fechados entre o delírio religioso e a morte. Seres trágicos do nada, voltando ao nada de onde nunca conseguiram sair.

O Brasil da explicitação do abuso de um poder arcaico, ainda mítico-religioso fundamentado na fantasia delirante de deus e do diabo, na violência e no sangue. Na crueldade do sofrimento mudo, onde o único sorriso é dado no puteiro por um velho, marcado fundo pela vida. Espaço rural onde Luís Garcia personagem Shakespeariano) faz lembrar a tragédia grega do não-conformismo.

Afastando-se do genial “Vento do Leste” de Godard que vai por um radicalismo político mais acentuado como experimentação e linguagem, Abelardo segue por outros caminhos sem trair o país e o cinema! A sua constituição é poética, espiritual, visual e Roseana.

Obra de fôlego, de vulto e de muitas intermediações: poesia, romance, filosofia, fenomenologia na construção e desconstrução de tempos, ideias e vontades. Com tudo já presente nesse laboratório de tantas naturezas e tão pouco ativado, o filme se projeta como um laboratório primoroso pelo que realiza e pelo que expõe. E pelo o que espera numa linguagem a construir e desconstruir. Filme de poucos exemplares. E em filmes como esse o cinema brasileiro se classifica e se afirma cada vez mais não somente pelo seu processo criativo de expressão, linguagem e narração. Mas, pelo zelo e os cuidados de uma produção trabalhosa e cuidada, principalmente nas essencialidades, aproximações de conteúdo estéticos e formais, sem interferências. Numa demonstração de que o artista brasileiro é múltiplo em seus processos criativos, inventivos e de resistência.

Desde a exuberância criativa de “Gregório de Matos” e “Serras da Desordem”, não víamos um filme nosso tão ousado e original. Daí a lentidão, os silêncios e, vez por outra, a presença contida do narrador, a nos conduzir numa história trágica de nossa formação. “FAROESTE” é um longa metragem espaçoso contrário a natureza do fácil. Claro que pode até não ser gostado, apesar de ser um grande filme. O cinema-poema de Abelardo de Carvalho é sim uma intensificação de imagens em conexão com uma paisagem rara de ser vista no nosso cinema.

Na floresta de “FAROESTE”, o cavalo branco de Luís Garcia, o personagem não é o cavalo branco de “Tom Mix”, mágico e enganador. O cavalo branco de Luís Garcia marcha com e para outras extensões de poesia e natureza, alargando o universo do dono, seu montador zeloso, companheiro e parceiro das travessias! Aqui a metalinguagem é desconstrução como avanços e aprendizados, pactos de mitos e conhecimento, e do que transborda como vontade: um tiro certeiro na macro estrutura histórica, mitológica, de conhecimento e de nossa formação enquistada nos rincões, ou encasteladas nas mansões e nas Casas Grandes.

O filme é mais do que emblemático, porque é o faroeste de todos nós, deste país distante e desconhecido. Porque a cultura é o amplo e o limite. Parece um projeto nascido já com asas. Pelo que já voou e pelo que ainda precisa voar como finalização poética, mitológica e de aproximações difíceis e, muitas vezes, impossíveis. Com as portas se abrindo só depois da morte do personagem.

E é por onde o filme nos pega: como dimensão de uma narrativa muito original, raramente vista no nosso cinema. Um filme que destoa, a desdobrar e desconstruir tudo o que se fez como faroeste. É metalinguagem até nas cavernas mineiras onde a luz do sol não penetra mas, que o filme ilumina à luz de tochas para nos mostrar o esgotamento pela nossa ignorância e o escondido em nós mesmos pela artificialidade de nossa formação de faroestes americanizados.

A linguagem desse faroeste mineiro é de uma extensão que não se apropria para deformar. É linguagem que se associa em pactos de natureza humana e de mitos. De aberturas, de buscas e de extensão nos sem fins de nós e de nossos sertões: individuais, sociais, psicogênicos e fenomenológicos.

“FAROESTE”, não é somente mais um filme brasileiro, como qualquer filme idiota para enganar o público. Trata-se de algo especial, de como são feitas certas coisas misteriosas, poéticas e de travessias.


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Luiz Rosemberg Filho
Criativo, poético e ousado cineasta em atividade no Brasil, dirigiu vários longas, curtas e vídeos. Produções foram: Crônicas de Um Industrial (1978), Assuntina das Américas (1975), Jardim das Espumas (1968), Américas do Sexo (1967), Balada da Pagina Três (1966), Imagens (1972), Um Filme Familiar (1979), Desobediência (1984), dentre outras.

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