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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
15-10-13
COLUNISTA CONVIDADO - Pedro Severien


“São” e a insanidade

Todos os filmes que faço nascem de uma imagem-semente, uma imagem-gênese. É uma espécie de intuição materializada. Ironicamente, a imagem que deu início ao processo de criação de “São” não está no filme. Tenho tantos sentimentos em torno disso que colocar a questão aqui é quase uma confissão arbitrária. Não quero extrapolar os meus limites, muitas vezes é melhor guardar emoções, imagens, ideias. Assim elas continuam vivendo em um universo desconhecido a todos, menos a si mesmo. E lá elas florescem, dão força para novas ideais, uma espécie de campo fértil para a imaginação, ambiente caótico e ao mesmo tempo harmônico da existência ou, para simplificar, uma ferramenta da vida criativa.

Eu não revelarei aqui qual é essa imagem-gênese do filme, assim como não revelo diversas imagens, informações, dentro do filme. E foi justamente na radicalização desse aspecto que construí a narrativa de “São”.

Faz já cinco anos desde as filmagens, e olhar novamente para esse filme é agora um exercício muito mais prazeroso do que antes. Devo contextualizar um pouco do ambiente e momento no qual o filme foi realizado. Eu acabara de fazer um filme chamado “Carnaval Inesquecível”. Nesse projeto, eu tinha colocado referencias pessoais, experiências oníricas em carnavais, um passeio pelo Recife, personagens instáveis, uma busca frenética por prazer. A experiência de realização foi tão excessiva que os resultados do filme e do extra-filme foram totalmente inesperados. Fiquei diante da loucura, não que eu estivesse ficando louco, mas uma pessoa eu amo muito estava. Essa experiência iniciou um processo de neurose múltipla, e sem que eu soubesse eu mesmo estaria explorando os limites da minha razão. Na essência, as experiências com a loucura na vida real me colocaram em paranóia diante da tela. Eu deveria encontrar um sentido, algo concreto sobre o qual o meu próximo trabalho deveria se construir.

Mas as imagens-gênese não escolhem nascer, apenas nascem. E cabe ao receptor cuidar dessas imagens, respeitá-las, amá-las com todas as suas belezas e falhas. Não foi o que eu fiz. Eu coloquei essa imagem-gênese a todos os tipos de provas de sobrevivência, a circunscrevi de lógica, pesei os meus valores sociais, manejei a expressão para um objetivo claro; desejei o filme-tese. Eu torturei essa imagem, e consequentemente torturei a mim mesmo ao ponto de ficar doente fisicamente e mentalmente. E assim nasceu o filme “São”. Não é a toa que esse titulo foi empregado. Vieram muitos antes dele: O impostor; O dia gritava; Caixa-Preta; Sol Azul.... e “São”.

Hoje, vejo mais claramente que é só olhar do lado inverso para entender o negativo. A minha experiência é a única da qual me apodero sem filtro e por isso mesmo é a matéria prima da qual surgem as imagens-gênese. Se bem que devo muito a alguns filmes de Buñuel, especialmente “A Bela da Tarde”. Há nesse filme uma forma tão irônica que é impossível esquecê-lo. A cada movimento de corpos e câmera ocorre um novo estado das coisas. Assistindo esse filme eu me deparei com um prazer tão secreto quanto o prazer da personagem de Catherine Deneuve ao se encaminhar ao apartamento-prostíbulo, ou mesmo ao assistir o seu marido ficar paralítico. Em suma, todo prazer deve correr solto. Caso contrário, paranóias tomarão conta do buraco que se cria em seu lugar.


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Pedro Severien
Nasceu em 1978, no Recife, Nordeste do Brasil. Formado inicialmente em jornalismo, estudou cinema em Bristol (Inglaterra), onde concluiu mestrado como bolsista do Chevening Programme. Ele iniciou a carreira de diretor com vídeos experimentais (Indigestão, Satiricuspe, O dia do clitóris em domicílio). Hoje, atua como roteirista, montador, produtor e diretor de cinema, à frente da Orquestra Cinema Estúdios.

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