Quartas, às 24h, na TV Brasil
(Canal 2, 18 NET, 166 SKY)
DIRETO DO TWITTER: 

Assista aqui o último programa na íntegra!
Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
08-07-13
COLUNISTA CONVIDADO - Marcello Quintella e Boynard


Hooji – Menos é mais

Fazer cinema é difícil. Sem dinheiro, então... Mais complicado ainda é fazer um filme com verdade, com ou sem grana. Tomando por base essas condições (falta de recursos e sobra de compromisso estético-narrativo), partimos, eu e alguns colaboradores que pegaram para si o projeto, para o processo árduo de produzir, praticamente de graça, “Hooji”, segundo filme que dirigi e que, intimamente, representou a descoberta de um idioma narrativo pessoal.

Era um filme difícil desde a sua concepção. A partir do sentimento expresso no haicai da morte do poeta japonês Umezawa Bokusui, tínhamos em mãos um roteiro que deveria contar a história de solidão e saudade de uma mãe que espera os filhos para o hooji (cerimônia budista em memória dos mortos) do marido. Ao longo do dia, enquanto prepara o banquete tradicional que integra a celebração, e à medida em que os filhos não aparecem, acompanhamos a alternância de sentimentos daquela personagem numa jornada sensorial, indo da expectativa eufórica de um reencontro a uma melancólica constatação de solidão – tudo isso sem diálogos. Não seria tarefa fácil, ainda mais pela decisão de
escalar um elenco japonês no Rio de Janeiro.

A protagonista não poderia ser qualquer atriz, sob pena de destruir o filme por excesso. “Menos é mais” – essa era a premissa, relativamente a todos os aspectos do filme. Então, surgiu para nós Miwa Yanagizawa, uma atriz brilhante que muito ajudou a todos a encontrar o tom do filme e, particularmente, muito me ensinou sobre o que é dirigir um ator. Durante o processo das filmagens, a cada cena que acabávamos de rodar, sentia crescer na equipe a confiança de que algo diferente iria resultar daquilo tudo. Como um grande ator faz diferença!
Tivemos ainda a sorte de encontrar um fotógrafo talentoso, curioso e aberto, Tiago Scorza. Acreditando na concepção fotográfica proposta, assumiu o compromisso de fazer um lindo filme em preto e branco com grande rigor narrativo e resolver diversos planos desafiadores para quem tinha muitas limitações de equipamento. Até skate se prestou para traveling em plano médio.

E contamos, ainda, com Carolina Kzan, montadora, coeditora de som (com Carlos Silveira) e assistente de direção. Uma coisa que aprendi nesse negócio de se fazer filme na marra: além da necessidade de gente talentosa ao lado, é preciso estar cercado de quem se goste de estar perto durante a finalização.
Miwa, Tiago e Carol, assim como toda a equipe, vestiram a camisa do “Hooji” e me ajudaram a ter um pouco mais de vontade de continuar tentando fazer cinema.

Todos fizeram mais do que o previsto, como Carlos Takeshi, que além de ator, foi responsável por grande parte da cenografia e, na hora em que o impasse se instalou no set, por falha do fornecedor do banquete cenográfico, arregaçou as mangas, virou mestre-cuca e salvou o dia.

Fruto de um trabalho em que todos tiveram muita liberdade para criar, a trajetória do filme confirma sua vocação de obra coletiva, pois já recebeu prêmios (até o momento, 21) e indicações em quase todas as categorias disponíveis (melhor filme, direção, atriz, fotografia, montagem, direção de arte, som e trilha sonora) nos quase 50 festivais de que já participou. Uma pena que tão poucas pessoas o tenham visto. Adorava quando as salas comerciais exibiam um curta antes do longa, mas esta é uma discussão para outras colunas.
Assim como a questão da má distribuição de verbas públicas para o fomento do audiovisual independente brasileiro.

Por enquanto, é necessário que prevaleça a lógica estética do “Hooji” – e que menos continue sempre sendo mais.


image

Marcello Quintella e Boynard
Carioca, 46 anos, jornalista por formação. Cinéfilo desde sempre, após os 40 anos começou a estudar roteiro. Em 2010, produziu e dirigiu seu primeiro curta, "Sitiados”. O filme teve boa aceitação em festivais e isso o estimulou a abrir a sua própria produtora, a Fata Morgana Filmes. Em 2012, com baixíssimo orçamento, produziu "Hooji", que já foi exibido em festivais de cinema em 17 países.

REALIZAÇÃO
image
EQUIPE
REVISTA DO CINEMA BRASILEIRO é uma produção independente, em co-produção com a TV pública brasileira - TV Brasil, focada na diversidade do audiovisual brasileiro.
APOIO TÉCNICO


Desenvolvido por HERCULA