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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
25-04-13
COLUNISTA CONVIDADO - Carlon Hardt


O DESCARTE

Ser curitibano, dentro do Brasil, é uma coisa meio estranha. É morar no país tropical, mas morrer de frio. É ver a brasilidade ser associada a elementos baianos, cariocas, nordestinos, paulistanos, amazonenses, etc... Mas nunca a nada propriamente nosso.

E não, não somos gaúchos.

Foi partindo um pouco desse paradigma, dessa falta de autoafirmação e autorreferenciação do curitibano, que surgiu a ideia do curta-metragem O DESCARTE.

Inicialmente pensado como uma maneira despretensiosa de homenagearmos um pouco daquilo que vivemos, conhecemos ou ouvimos falar, e que não é frequentemente visto nas telas das grandes produções nacionais, é que foi surgindo a história por trás do filme. Sem ter a pretensão de nem se aprofundar nos recônditos mais profundos da pesquisa do cinema-arte, nem tampouco de obter qualquer forma de sucesso comercial ou de público, o curta foi surgindo um pouco como um exercício de quem gosta de ver filmes e gostaria de ver as suas coisas representadas na tela.

Curitiba passou por uma transformação intensa no final dos anos 80 - começo dos 90. Deixava de ser uma cidade pequena para passar a fazer parte (ou pensar que fazia parte) do rol das grandes metrópoles. A propaganda da ´capital ecológica´, com seu moderno sistema de ônibus, trouxe muita gente nova para a cidade e foi nesse paradigma de ebulição social que começou a surgir uma cena underground permeada por bandas de rock, bares lotados, pastelarias engorduradas e apresentadores de tv insanos. Era esse o período que queríamos retratar.

A partir desse plano de fundo, a história, despretensiosa ao ponto da inocência, foi sendo facilmente costurada entre fatos, lugares, eventos ou personalidades. As referências daquilo gostávamos de assistir no cinema foi sendo transposta para a nossa realidade, recheada por referências daquilo que havíamos visto e consumido.

Como a parceria na direção já vinha de uma parceria de sociedade (sou sócio do Lucas Fernandes no estúdio especializado em produzir materiais visuais para músicos e bandas, a Cia de Canalhas), nada mais óbvio que trouxéssemos para essa experiência no cinema aquilo que melhor fazíamos em nossa (então breve) experiência como sócios: a animação.

O desafio era um pouco trazer o cinema de animação para dentro de uma linguagem, de temas e de apropriações características ao cinema “live-action” em uma realidade onde a animação ainda é compreendida como uma manifestação essencialmente infantil. Algumas passagens na história são claramente uma provocação à infantilização do cinema de animação no Brasil. A cena de abertura do filme já dá conta do recado: tirem as crianças da sala. Entretanto para quem não se incomoda com um pouco de sexo, violência e palavrões, O DESCARTE, é em essência um filme leve, onde tudo é tratado com bom-humor e uma boa dose de sarcasmo.

Enfim, o filme é sobretudo um exercício de liberdade de quem viu suas próprias referências e preferências sempre moldadas à um padrão que não o seu próprio. Foi um esforço colossal (o curta de 17 minutos foi desenhado à mão quadro-a-quadro por apenas duas pessoas) que trouxe um retorno mais do que esperado ao demonstrar que ao mostrar aquilo que é importante para você, pode-se despertar a identificação em pessoas que vivem em uma realidade tão distante quanto Recife é de Curitiba, mas que através do cinema se tornam tão próximas.

Depois de baixada a poeira levantada por O DESCARTE, os sócios-canalhas iniciam agora uma nova empreitada misturando cinema, animação e música. Nos preparamos para lançar ainda este ano um curta-metragem que será formado por três videoclipes de músicas diferentes, de artistas diferentes (Arnaldo Antunes, Fernanda Takai (em parceria com Andy Summers) e Milton Nascimento), em técnicas de animação diferentes (2D, rotoscopia e stopmotion). Mas isso é assunto para outra história.


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Carlon Hardt
Formado em Design Gráfico na UFPR, em Gravura na Belas Artes do Paraná. Estudou na Facultat de Bellas Artes de Barcelona. Fundou em 2009, junto com Lucas Fernandes, a Cia de Canalhas - um estúdio dedicado a produzir materiais visuais para o meio musical, capas de discos, logos, cartazes e videoclipes. www.carlon.art.br | www.ciadecanalhas.com.br

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