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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
12-04-13
COLUNISTA CONVIDADO - Nana Maiolini


Buracos Negros, Luz

A experiência poética (...) não nos ensina nem nos diz nada sobre a liberdade: é a própria liberdade desdobrando-se para alcançar algo e assim realizar, por um instante, o homem.

Octavio Paz, A consagração do instante

Falar de Buracos Negros é falar de imagens em luta. Documentário e ficção, o filme nasce de uma experiência de coleta de imagens e sons na região da Luz, em São Paulo, onde há um choque entre o que se vê e o que se quer ver.

Submetida ao recorrente movimento de erguer e arruinar, o que se transforma não são apenas as estruturas materiais da região, mas também as ocupações e dinâmicas urbanas, os estigmas e representações do lugar. Esse movimento marca a história do bairro, como a história da cidade de São Paulo, cujo processo de urbanização já foi comparado a um palimpsesto – camada que se sobrepõe, gerando o apagamento da anterior.

O filme irrompeu do interesse em captar um desses momentos de tensão e disputa pelo solo que mobilizam transformações de ordem simbólica e material da região conhecida como Cracolândia. A famigerada terra do crack, muito em voga nas pautas midiáticas,vinha sendo tratada pela administração pública como assunto de polícia e de empreendedores imobiliários; com o projeto Nova Luz, a municipalidade prometia construir um bairro novo, rico e cultural. Na mesma toada, o projeto do Complexo Cultural - Teatro de Dança, anunciava agregar mais uma instituição (no modelo edificação-símbolo de cidades globais) à região da Sala São Paulo, Pinacoteca, Museu da Língua Portuguesa, para assim converter a Luz no maior polo cultural da América Latina.

Ambos os projetos, municipal e estadual, partiam da velha conhecida política do “bota abaixo”. Ações de repressão a usuários do crack; fiscalização e fechamento de estabelecimentos; despejos e demolições marcavam o dia a dia do lugar.

A percorrer o espaço com uma câmera, interessava-me sobretudo o que havia de invenção nos modos 
de vida e de comunicação naquela esfera de precariedade. Ao mesmo tempo, a necessidade de interferir mais ativamente no espaço, gerou a proposta de uma ação com bailarinas nas bordas da quadra arrasada para se construir o Teatro de Dança. Dançar ali, para nós,era insultar certa anestesia da normalidade, era entrar em choque com uma compreensão funcionalizada e discursiva do corpo na cidade; uma dança com d minúsculo, cuja música era a dinâmica do lugar, a dança das retroescavadeiras.

Em momento algum a dança foi ensaiada ou encerrada em espaço exclusivo. Pelo contrário, aberta às contingências do urbano,teve seus momentos de êxtase no encontro com personagens da rua, fossem eles noias, policiais ou máquinas.

Por uma irônica e infeliz coincidência, o material bruto de filmagens foi furtado quase integralmente quando o filme já estava em edição. Buracos Negros sobreviveu graças a uma sobra de material, um dia extra de filmagem e apropriações livres de rádio, televisão e de cinema – sobretudo aquele produzido na Boca do Lixo dos anos 60 e 70.

Nem tudo é verdade. Em maio do ano passado, quando o primeiro corte era finalizado, o filme foi noticiado como o registro de um espetáculo de balé nas ruas da Cracolândia. Imagem alguma poderia ter sido mais avessa à lógica de BN do que esta, criada pelo jornalista. Se tal imagem apagasse as anteriores, seria um filme palimpsesto.

Mas o filme está no mundo e as imagens, em embate, vivas.


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Nana Maiolini
Nana Maiolini é arquiteta formada pela FAUUSP. Dedica-se a trabalhos ligados a arquitetura, urbanismo, música, cinema e vídeo. Dirigiu Buracos Negros, curta metragem vencedor do troféu Filme Livre 2013.

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