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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
06-02-13
COLUNISTA CONVIDADO - Vinícius Penelas


Dois Tópicos referentes ao filme “Câncer” de Glauber Rocha

1. Cinema Novo ou Cinema Marginal

Questionar o poder do discurso da arte leva a questionar a própria arte e o lugar do artista. Não mais a certeza da nobre missão política do artista engajado. Não mais a certeza do poder do discurso cinematográfico. Talvez esteja aí a razão profunda do conflito entre marginais e cinemanovistas.
Ao contrário do Cinema Novo, o Cinema Marginal não se define por uma coesão interna e tampouco seus membros se reconheciam como grupo.
Um fator que a princípio aproximaria o Cinema Marginal do Cinema Novo acabou por distanciá-los: a questão do autor no cinema. O cinema de autor permitiria uma prática cinematográfica desvinculada, a liberação do artista que deixaria de ser refém de sua obra como mercadoria.
Os diretores “marginais” dialogam muito entre si por conta das temáticas escolhidas, que envolvem sexo, corpo, poder e um quê de espetacularização de tragédias sociais, escárnio das misérias humanas, deboche e ironia. A violência é recorrente tema central de suas tramas. Os filmes do grupo marginal cafajeste eram repletos de citações a cultura pop, como músicas, quadrinhos, numa junção de inúmeras referências e, portanto, são dignos de um minucioso estudo. É justamente a intertextualidade a característica que permite ao marginal cafajeste uma absoluta renovação na linguagem cinematográfica até então praticada no Brasil pois aproveita a veia intertextual lúdica de um discurso para manter um diálogo próximo com os aspectos mais desprezíveis da sociedade de consumo.

2. Ambigüidade

Uma das seqüências mais significativas em relação à ambigüidade de Câncer é a que mostra um diálogo entre Odete Lara e Hugo Carvana na sala de um apartamento. Retrato irônico da classe média, esta cena é um exemplo claro de como o individualismo marginal choca-se com o discurso subterrâneo do cinema novo.
A cena traduz o embate interno entre a ação e a indiferença proposital, entre o compromisso e o escracho, entre a visão coletivista e o individualismo - contrastes que refletem muito do que foi a discussão ideológica entre o cinema novo e o cinema experimental. Câncer oscila o tempo inteiro entre a visão construtiva e a desilusão.
Câncer incorpora o documentário à ficção e engloba o marginalismo como interrogação íntima do discurso cinemanovista. O próprio Glauber anteciparia a Sganzerla: "Não tenho escrúpulos em apelar para qualquer estilo desde que incorpore às minhas idéias, desde que seja necessária à discussão do tema." O mesmo diria Sganzerla, em outro tom, dois anos depois, a propósito de O Bandido da Luz Vermelha: "O ponto de partida de nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema – como também da nossa sociedade, da nossa estética, dos nossos amores e do nosso sono."


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Vinícius Penelas
Vinícius Penelas tem 31 anos, é cinegrafista e diretor de fotografia, formado em Cinema pela UNESA. Dirigiu a fotografia de programas para a TV BRASIL, como "Cara & Coroa", para o Canal Futura, como "Florestabilidade". Fez direção de fotografia do curta-metragem "Meu Cão me Ensina a Viver", de Felipe Moura, vencedor do premio de melhor direção de arte do festival de Recife. Trabalhou como cinegrafista nos programas "Detox do Amor", "No Astral" e "Perfumes da Vida" do Canal GNT e "Minha Praia", reality para o Canal Multishow. Foi cinegrafista em 2008/9 para o programa Globo Ecologia, da Fundação Roberto Marinho.

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