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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
31-01-13
COLUNISTA CONVIDADO - Lucas Paraizo


PALAVRA DE ROTEIRISTA

Uma das perguntas mais difíceis de responder a um aspirante a roteirista é sobre o caminho que se deve percorrer para se tornar efetivamente um escritor de cinema. Já ouvi essa questão de alunos, colegas e curiosos e confesso que nunca soube respondê-la como gostaria. Eu também sempre quis saber essa resposta.

A roteirista espanhola Lola Salvador, com quem aprendi não apenas em sala de aula, mas nas conversas pelos corredores da Escuela Internacional de Cine y Televisión em San Antônio de los Baños, Cuba, defende que um roteirista não se forma em menos de sete ou oito anos de dedicação. Mas dedicação à quê? Onde? E com quem? Nunca entendi aquela afirmação.

Eliseo Altunaga, escritor e roteirista cubano, decano do departamento de roteiro da mesma Escuela e responsável por arrastar meu coração ao universo da dramaturgia, costuma dizer que um roteirista é como uma prostituta: não deve ter preconceito com cliente. Sempre achei essa declaração um tanto quanto espantosa para não admitir minha ignorância diante dela.

Quando recebi o convite da Tango Zulu Filmes para dirigir o documentário “O Roteirista”, dentro da série que a produtora paulista desenvolve sobre as profissões do cinema, não titubeei: era a oportunidade de perguntar pessoalmente aos roteiristas brasileiros a tal questão que nunca soube contestar.

Remexi em papéis, arquivos, livros, anotações e cantos da memória, tudo o que me havia sido dito e mostrado sobre o assunto.

De Aristóteles a Robert McKee, passei por Vladimir Propp, Gotthold Lessing, Peter Szondi, Jean-Claude Carrière, Frank Baiz Quevedo, Eugene Vale, Christian Metz, John Howard Lawson, Lajos Egri, Christopher Vogler, Michel Chion, Syd Field, Doc Comparato, David Mamet, Linda Seger, John Truby, entre outros, revisando temas que pudessem amparar minhas conversas com os profissionais que iria conhecer. Um arsenal de perguntas sobre a profissão que recentemente havia abraçado com mais dúvidas do que certezas.

Durante doze dias, entre Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, amparado por uma equipe que registrava nossos encontros, conversei com 32 roteiristas muito diferentes. Com gostos e visões de mundo diferentes. Métodos de trabalho e manias diferentes. Certezas e inseguranças bastante contraditórias. Mas com uma coisa comum: as telas dos cinema.

Depois de quase cem horas de material gravado havia mais confusões do que esclarecimentos. Apesar de ter aprendido um sem fim de informações e pontos de vista sobre o trabalho do roteirista, a perspectiva de construir um discurso coerente sobre o processo criativo da escrita para o cinema pecava tanto pelo excesso de material quanto antes por sua falta.

Dois meses de transcrições, mais um mês de leitura e finalmente três meses de montagem resultaram no documentário “O Roteirista”. Missão cumprida. Mas minha frustração ainda era maior do que minha alegria. Estava inconformado com a inevitável condensação que o cinema me obrigou a fazer: reduzir a praticamente dois minutos a participação de cada um dos 32 entrevistados com quem conversei por quase três horas. Pobres diretores. Tinha mais material fora do filme do que nele. Era um desperdício.

Uma das melhores frases do roteirista e diretor Paul Schrader (Taxi Driver, Touro Indomável, Gigolô Americano, A Última Tentação de Cristo) no livro “Screencraft Screenwriting”, de Declan McGrath e Felim Macdermott, o americano diz que os roteiristas “não devem estudar cinema, devem estudar a si mesmos”. Pensando nisso e em outros livros, que também serviram de referência para este trabalho era inevitável aproveitar e reunir aquelas entrevistas em um volume que complementasse não só a formação teórica dos manuais de roteiro que havia lido, mas o filme que acabava de fazer.

Durante dois anos, depois do trabalho, em viagens de férias, nos finais de semana e entre uma crise e outra, ouvi, li, e reli dezenas de perguntas e respostas e já confundia opiniões e pontos de vista. Aqueles roteiristas viraram personagens de um roteiro interminável. Poderia conviver com eles para sempre e discutir eternamente suas experiências. A responsabilidade de transformar seu discurso verbal em matéria escrita e fazer com que suas idéias tivessem um formato literário coerente me custou algumas noites de sono e muita terapia.

Para cada personagem, para cada roteirista, escrevi uma pequena apresentação. Talvez menos objetiva e mais sensorial do que se espera. Precisava humanizá-los para ressaltar suas opiniões. Sempre quis evidenciar que por trás de cada roteirista há uma pessoa: divertida, simpática, mal-humorada, generosa, tímida, neurótica, mas principalmente sem medo de se expor. É isso o que os transforma em destacáveis profissionais. E se há um trabalho que precisa de personagens contraditórios, esse é o nosso, o do roteirista.

“Palavra de Roteirista” foi o melhor titulo que encontrei. Simples, quase redundante e algo irônico. Não sei se o leitor, roteirista ou espectador, vai encontrar ao final das entrevistas alguma resposta sobre o tal percurso modelo do roteirista. Nele não há nenhum atalho no caminho das pedras. Mais do que responder questões, o livro e o filme sobre a profissão do roteirista querem bagunçar conceitos, chacoalhar idéias e ser o dono de tantas verdades quantos forem seus leitores.


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Lucas Paraizo
Roteirista de cinema e TV e professor de roteiro da PUC-Rio, Escola de Cinema Darcy Ribeiro e da Escuela Internacional de Cine y Televisión de Cuba. Em 2011, lançou o documentário “O Roteirista” junto com o livro “Palavra de Roteirista”, uma coletânea de entrevistas com 20 autores do cinema nacional contemporâneo.

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