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16-01-13
COLUNISTA CONVIDADO - PRISCILA MAIA


O que Poe falou para Pina quando eu era criança e escutava tudo

Wuppertal, cidade industrial onde a coreógrafa alemã Pina Bausch viveu e trabalhou a maior parte de sua vida, pode aqui ser considerada como exemplo de metrópole minada. Em O Lamento da Imperatriz, sua única obra cinematográfica, Pina Bausch faz Wuppertal ser personagem principal de uma série de cenas fragmentárias compostas por um organismo de corpos sem identidade. Cada canto da cidade – metrô, floresta, avenida, teatro- funciona como ambiente bomba, verdadeiro detonador para situações improváveis. Nenhum personagem tem nome nem procedência; entretanto, evocam todas as emoções do mundo. Neste filme, não acompanhamos o drama de nenhum herói; ao contrário, vemos andanças errantes sendo traçadas pelas paisagens urbanas, corpos cambaleantes que têm o tropeço como traço e a falta de objetivo como leitmotiv. Bailarinos bem vestidos que agem sem propósito aparente, desenraizados e solitários, vagando num eterno trânsito operante. A dança enaltece o fazer; à ela, Pina adiciona o não concluir.

Assim como o sujeito contemporâneo encontra-se atravessado por rajadas de outros sujeitos, a cidade cenário do filme igualmente possui um caráter ambíguo e descontínuo. Em O Lamento da Imperatriz, o tempo é cíclico, e não respeita nenhum paradigma dramatúrgico. Têm-se um casal dançando tango num plano, enquanto no plano seguinte, um homem dorme coberto de neve. Não se obedecem às regras cinematográficas tradicionais, como a necessidade de raccord e dos contraplanos. Não existe uma narrativa linear, mas um sentido que vai sendo tecido através de cenas fragmentadas e descontextualizadas de outros tempos. Sem recorrer a cortes e decupagem sofisticada, cada cena de Pina Bausch carrega em si um universo imagético desmembrável.

Em um determinado momento, uma mulher corre pela rua chorando, enquanto permanecemos ouvindo a música da cena anterior, uma canção alegre do vaudeville americano. Muitas vezes, as ações não partem do zero; o que vemos é o vestígio de uma trajetória inacabada. Não sabemos por que ela chora nem aonde quer chegar. Nesse caso, parece que Pina Bausch tirou do público o essencial, criando uma brecha para fabulações autorais e voos coletivos. Tudo é pretexto para se buscar novos significados. Em sua obra, o sentido se constrói pela ambigüidade em associar signos muitas vezes contraditórios – um bode sendo puxado pelo chifre, uma mulher de salto alto na lama, um homem que se barbeia agachado numa poça de chuva -, articulados por ações simples como andar, correr e carregar, através do uso de objetos descontextualizados de sua função usual. É pela lógica do sonho que o dispositivo cinematográfico se legitima, e não há comprometimento entre causa, sujeito e objeto.

Em 1840, o escritor assustado Edgar Allan Poe olhou com curiosidade para a Londres agitada pelas conseqüências da Revolução Industrial. Em 1989, foi a coreógrafa poeta Pina Bausch que se deixou tensionar pelo que Wuppertal assoprava em seus pés. Em O homem na multidão, o narrador de Poe permanece atado a um circuito espacial que o vincula ininterruptamente à cidade. No filme de Pina, os bailarinos também encontram-se presos à experiências sensoriais descontínuas. O homem da multidão que Poe descreve é um homem qualquer, preso à rua e ao seu velado circuito, repetitivamente fugindo da solidão. As personagens de Pina Bausch transfiguram-se com acessórios inusitados, trocam de gênero e tentam aos atropelos se comunicar; mas, na maioria das vezes, permanecem sozinhos. A cidade os torna vulneráveis, além de concentrar o paradoxo da crise identitária. Aproximando as duas narrativas – a literária em Poe e a cinematográfica em Pina - , percebemos que ambos trabalham o corte seco, a ruptura livre sob o efeito do tal “estado eletrificado” que nos torna mais criativos e curiosos quanto à ação e à natureza humana. O que importa é seguir os sentidos, são eles que nos conduzem. Em Poe e em Pina, a atenção está para fora, na cidade e em suas alteridades, e as personagens encontram-se “sensorializadas”. O público cruza com as situações e fica com a impressão que a experiência lhe sugeriu, totalmente delineada pelo aguçamento dos seus sentidos. É como se a câmera – no caso do Poe, o narrador – agisse como um flâneur que cruza com uma realidade pré-existente e se deixa levar por sua beleza fugaz. Poe e Pina são artistas que pensam por imagens, alcançando um sentido mais amplo por tratarem a arte como um jogo de quebra-cabeça, aberta à diversas fabulações. “Há certos segredos que não consentem ser ditos”, disse Poe. Pina se foi, e os artistas da imagem ainda tentam escutar o sussurro de seus pés.

Priscila Maia é pesquisadora e coreógrafa.

Onde ler o conto:
http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/apoe_homem.shtml

Como ver o filme:
http://www.youtube.com/watch?v=P_pEirgUpPM


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PRISCILA MAIA
Bacharel em jornalismo pela UFRJ e roteirista com especialização na Escuela Internacional de Cine Y Televisión (Cuba), desde 2003 dedica-se à dança e ao vídeo. Formou-se em dança contemporânea na Escola Angel Vianna e em Montagem no Centro de Formación Profesional del S.I.C.A. (Argentina). Realizou a Mostra Dança e Cinema: Um giro por Pina Bausch, no Instituto Baukurs Cultural (RJ) e no Teatro Moinho da Estação(R.S.). Seu curta metragem Vide o Tape ganhou o 2˚ lugar no I Concurso Curtas de Bolso do site Tela Brasil e foi exibido nos principais festivais de videodança da América Latina.

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