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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
07-01-13
COLUNISTA CONVIDADO - Thiago Luciano


“Cinema? Só do outro lado da rua”

Aos quatro longos passos de uma terça-feira, de cor amarelada em pleno centro da cidade, um amarelo diferente, puxado pelos cantos de cor infinita. Um homem se aproxima em plano médio, toca minha mão que de punho cerrado repele o tenso golpe. Mas que golpe? Apenas um leve toque do dedo mindinho, em tela apertada e em movimento 60 quadros por segundos, nem tão rápido nem tão lento. Seguida de uma voz rouca em duas palavras: “Um trocado?”

Com os olhos apertados, em plano detalhe. Não os dois olhos juntos no mesmo plano, primeiro um e depois o outro, a cabeça chacoalha de um lado ao outro rapidamente (Speed 180), sem nenhuma palavra entendível, mas um sinal compreendido em qualquer língua, sem precisar de legenda. Um largo passo na direção contraria, ouço um estrondo, mas não um estrondo comum, um estrondo que começa na têmpora do lado esquerdo e termina no queixo do lado direito, passando pela nuca. Som exacerbado e bem equalizado, sem estourar. Um bom estrondo 5.1! Em cima da calçada uma roda aro 18 de uma bike elétrica preta fosca, gira estorcida devido a pancada. Zenital da bike jogada no chão e uma mulher de capacete em pé, e embaixo da bike-móvel uma senhora de uns setenta anos ou cinqüenta. Talvez oitenta. Muita gente aglomerando rapidamente, figurantes para todos os lados. Eles chegam apressados e empurram uns aos outros. Ao lado da senhora uma pequena poça de sangue, ou seria óleo? Não podia ser óleo, era uma bike-móvel e não um carro ou uma moto. Burburinho para todos os lados, mas deixando espaço para a protagonista cuspir a frase certa no momento exato: “Alguém chame os médicos!”, a fala era entonada perfeitamente com todas as letras articuladas, e a respiração ofegante. Como ela fazia isso? Respirava exatamente no momento certo para não atrapalhar a dicção da palavra. Ao longe outro belo som, a sirene, a velha sirene abrindo caminho. E do meio da multidão a frase mais clichê de todo o leste e oeste e faroeste, mas o impressionante é que mesmo no meio da barulheira toda de carros e ônibus e curiosos e figurantes, e equipamentos, ainda se ouvia a frase do bombeiro: “Afastem-se por favor!!” Dita com uma propriedade particular digna de um “Oscar”. As pessoas se afastavam organizadamente e enfileiradas dando espaço ao bombeiro de figurino impecável.

Corte seco e eu alcanço com um último longo e desenhado passo a sarjeta do outro lado da rua. A senhora já em cima da ambulância, que ejaculava aquela luz vermelha da sirene. Mesmo em uma manhã de terça era possível ver a luz vermelha no rosto dos transeuntes. “Como isso era possível?”

Na bilheteria, sem fila, e por trás do grosso vidro, olho para o rosto jovem emoldurado pelo liso cabelo roxo. Ela sorri e solta o desafio: “Qual filme?” “Eu preciso assistir um filme! Urgente! A vida anda muito metódica, nada de diferente, nada de novo! Preciso de um filme que me transforme, que me faça ver cores diferentes, ângulos estranhos, interpretações fantásticas, olhar diferente! É disso que eu preciso! Um filme que me leve para os lugares mais secretos, mais intocáveis. Eu preciso, por favor, eu preciso!” Não foi exatamente isso que disse, disse apenas: “Esse.” Seguido de um leve movimento do dedo indicador. Outro corte seco, bilhete na mão.

O filme começa e me ajeito na cadeira. Na sala menos de meia dúzia de indivíduos. É tão real, tudo é tão visceral. Parece que estou vivendo aquela vida, parece que estou dentro da tela. Um tiro que acerta em cheio a cabeça do bandido, e eu aqui, sentado, consigo ver o sangue escorrendo pelo buraco feito com a bala metálica brilhante. É disso que eu preciso! De um pouco de verdade, desse entusiasmo. Isso sim é real! Isso sim é cinema!


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Thiago Luciano
Nascido em Campinas, ator, diretor de teatro, cineasta e roteirista, Thiago é fundador do N.E.C (núcleo de estudo cinematográfico). Se formou em artes cênicas e fez cursos com Robert Mackee NY, em roteiro. Seu longa metragem “Um Dia De Ontem”, melhor trilha sonora Festival Latino do Paraná; Melhor filme no Beverly Hills Hi-Def Film Festival, além do prêmio de Melhor Direção no Festival Iberoamericano de Sergipe. Roteirista e diretor do curta “Essa não é a historia de Gregor Samsa”, melhor filme no 21 Festival Internacional de Curtas de São Paulo. Diretor e ator do curta “Inocente” Seleção Oficial Los Angeles Latino International Film Festival; Thiago também foi o roteirista e diretor do curta “CAFÉ TURCO”, premiado pelo júri popular como melhor curta no Festival de Paulínia, 2011 e Festival Iberoamericano de cinema de Sergipe, 2012. O curta foi selecionado entre os melhores 50 curtas-metragens do mundo, pelo Festival do YOUTUBE Yourfilmfestival, 2012.

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