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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
29-11-12
COLUNISTA CONVIDADO - Bruno Galvão Romboli


A CULPA É DO DOSTOIEVSKI

De uns tempos para cá ando com uma mania estranha: fico fazendo associações de relações do cinema com a literatura. Deixe eu me explicar: não é a questão do roteiro, que eventualmente pode ser uma adaptação de uma obra literária, mas sim as minhas sensações lendo um livro e assistindo a um filme.

Não busco associar a obra de determinado cineasta com determinado escritor do ponto de vista da linguagem. Não interessam as questões culturais ou de tempo e espaço. O que importa aqui são as emoções causadas ao entrar em contato com estas duas obras de arte: a literatura e o cinema.

Acho que a culpa é do Dostoievski . Tudo começou com ele.

Fiodor e Michelangelo. A obra destes dois artistas me toca da mesma forma: pesado para ler ou assistir. A impressão é que você fica um longo tempo digerindo aquilo. Preso na mente e no coração, semanas, meses ou até mesmo anos depois, aquele sentimento reaparece: e como um Déjá Vu, de repente se percebe: é Fiodor Dostoievski. É Michelangelo Antonioni.

Machado e Woody. Ambos tem a ironia como sua marca registrada. Além disso, Machado de Assis e Woody Allen, em meio a narrativa, falam diretamente com o espectador ou leitor. Allen filma a famosa “olhada do ator para câmera” no meio de uma cena. Lembra os textos de Machado, falando para você, você mesmo, caro leitor.

Liev e Francis. “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz a sua maneira”. A magistral abertura de Anna Karienina, de Tolstoi poderia muito bem sintetizar a saga dos Corleone, em “O poderoso chefão”, de Copolla. Tanto o russo como o ítalo-americano nos lembram o tempo todo que a família está sempre em primeiro lugar. Liev Tolstoi e Francis Ford Copolla possuem uma narrativa clássica e poderosa.

Luis e Charles. Assim como Charles Chaplin, Luis Fernando Veríssimo é engraçado de uma maneira que beira o absurdo extremo. Aparentemente simples, eles vão fundo. Colocam o dedo na ferida e fazem o tipo de arte que considero a mais difícil de todas: comédia com crítica social. E por conseqüência, as gargalhadas são acompanhadas de muita reflexão.

Gabriel e Luis. O realismo fantástico de Gabriel García Márquez atinge níveis que só mesmo o surrealismo de Luis Buñuel conseguiu. Certa vez o diretor mexicano Alejandro González Iñárritu disse: “Não me importa a realidade, mas sim a verdade”. Com a ajuda dos sonhos e do subconsciente, Buñuel cavou tão profundamente nos sentimentos desta espécie chamada homo sapiens para enfim, achar a verdade. A mesma verdade que está presente em cada personagem, em cada suspiro, das estórias(a língua portuguesa abandou o uso de estórias, mas Gabo não faz histórias, e sim, estórias maravilhosas) de Gárcia Márques.

Friedrich e Lars. O pessimismo de Nietzsche é tão forte quanto a melancolia de Von Trier. E embaixo de tudo isso aparece uma beleza inigualável. Não são fáceis. Friedrich Nietzsche e Lars Von Trier são ”um soco no estômago”. Mas se você sobreviver, se tornará uma pessoa melhor.

George e Stanley. Acho que a sensação que tive ao assistir pela primeira vez “Laranja mecânica” só pode ser comparada ao dia que terminei de ler “1984”. Stanley Kubrick foi o maior dos realizadores do cinema. Assim como George Orwell não pensava duas vezes antes de chocar o público. “É um erro confundir dó com amor”, dizia o diretor americano.

Jorge e François. Os “pequenos grandes” assuntos da vida. A sutileza da paixão. A loucura do amor. Antoine Doinel tem a persistência do um capitão de areia? François Truffaut e Jorge Amado fazem tudo parecer simples. A paixão que transborda pelas folhas de papel de um é a mesma que respinga pelas imagens dos filmes do outro.

Nelson e Ingmar. O frio da Suécia e o calor do Rio de Janeiro são extremos tão grandes quanto Nelson Rodrigues e Ingmar Bergman. Mas se você olhar bem, ou melhor, sentir bem, verá que a essência destes dois artistas é bem parecida. O brasileiro era mais preocupado com as questões políticas. O sueco, com exceção do tema do aborto, recorrente em quase todos os seus filmes das décadas de 40 e 50, parecia não se importar muito com a política. A verdade é que Ingmar Bergman estava muito mais interessado com chatice real e a banalidade do dia-a-dia. A grande fixação de Nelson Rodrigues também eram os casos familiares e os assuntos do coração. Ele se debruçou sobre o cotidiano. Ambos são essenciais. Entenderam e nos ensinam muito sobre este grande oceano de mistérios chamado a “alma humana”.

A minha sanidade tem seus motivos. E muitos destes motivos foram citados neste texto.

Com eles eu ri, chorei, cantei, me senti mal, me senti bem, me angustiei, senti afeição, apreensão, encanto, fúria, compaixão, dor, gratidão, pavor, entusiasmo, decepção, encanto, nostalgia, medo e esperança. E sonhei. Principalmente sonhei.

E sempre que sinto desesperançoso e abatido , volto a estes livros e filmes, e mesmo conhecendo muitas de suas linhas e imagens de cor, após relê-los e revê-los me sinto tomado de um sentimento que pode ser definido em uma única frase, dita em uma noite do ano 1950 por Willian Faulkner: “Eu me recuso a aceitar o fim do homem”.


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Bruno Galvão Romboli
Nasceu em São Paulo em 5 de Janeiro de 1981. Formado em Cinema. Trabalhou por 10 anos em TV. Hoje, é assistente de direção em publicidade e cinema. Também é roteirista, produtor e diretor de curtas-metragens. Há um ano, é colunista de cinema num blog de arte urbana e lifestyle: www.revolue.com/blog/category/cinema

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