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23-11-12
COLUNISTA CONVIDADO - Salete Machado Sirino


A Tímida Luz de Vela das Últimas Esperanças: que luz!

Em uma tarde, durante as filmagens do filme Curitiba Zero Grau, o Jackson Antunes, que é um dos protagonistas deste filme, me falou: eu e a Cristiana Britto (atriz, empresária e esposa do Jackson), queremos convidar vocês (eu e o Talicio Sirino, produtor do Curitiba Zero Grau), para irem até o hotel onde estamos hospedados, porque a gente quer ler um texto para vocês. A melhor definição que tenho daquele começo de noite, no qual a Cristiana lia com maestria as falas de Zizi e Antonieta, do texto teatral A Tímida Luz de Vela das Últimas Esperanças, é: aqueles raros momentos em que a gente, nesta conturbada rotina, tem um tempo para alimentar o nosso espírito com arte. É isto que este texto representa: pura arte. Ao final, lembro que comentei: este texto deveria ser filmado. O Jackson, ainda muito emocionado com a leitura da Cris, disse: é isso! E continuou: desde que eu comprei este livro em um sebo fui tomado por ele, o autor deste texto, Milson Henriques, tem uma capacidade de olhar fundo na alma humana. Eu naquele momento estava envolvida em um mestrado em letras estudando Guimarães Rosa, sinceramente, não dá para estudar Guimarães e ouvir um texto com tamanha sensibilidade como A Tímida Luz de Vela das Últimas Esperanças, e passar despercebido por ele. Então o Jackson me contou que já tinha falado com o Milson que pretendia filmar este texto e o autor, é claro, mais do que autorizar ficou muito feliz, principalmente, pelo interesse vir de um artista tão completo e apaixonado quanto o Jackson Antunes. Na sequência, o Jackson me convidou para adaptar, junto com ele, este texto de teatro para roteiro de cinema. A parceria seguinte foi a mais desafiadora, o Jackson propôs: vamos filmar? E filmamos. A Tímida Luz de Vela das Últimas Esperanças foi rodado em película Super 16mm e finalizado em HD, com locações na cidade de Curitiba. O trabalho de adaptação do roteiro começou em setembro de 2009 e para que o filme pudesse ser rodado em apenas nove dias, em dezembro do mesmo ano, entre setembro e novembro houve um trabalho de preparação minucioso, com intensa dedicação especialmente por parte da equipe de direção, produção e das atrizes. Como o filme foi produzido de forma independente, já que se optou por não inscrevê-lo em leis de incentivo e, ainda, pelo fato dos produtores do filme terem decidido que esta obra fosse rodada em película, o que encarece a produção, houve a necessidade mais de dois anos para a sua finalização. Claro, que em geral, este é o tempo de produção de filmes que utilizam leis de incentivo, até porque o tempo necessário para a finalização ultrapassa questões financeiras e de agenda de serviços de laboratório, de montagem, do desenho de som e da construção da trilha. O filme finalizado tem 75 minutos de duração. No momento das filmagens, tínhamos 20 latas de negativo Super 16mm para rodar o filme, destas utilizamos dezoito latas e meia, assim, a maioria das cenas foram rodadas em 3 por 1. Mas, como em produção de baixo orçamento, por mais preparação que haja sempre acontece o imprevisto, no último dia das filmagens, em uma sequência noturna densa, estávamos com pouco negativo para as cenas noturnas e os planos desta sequência tiveram que ser rodados 1 por 1. Ser convidada por Jackson Antunes para junto com ele adaptar o texto teatral de Milson Henriques e para codirigir A Tímida Luz de Vela das Últimas Esperanças, foi um desses momentos especiais de aprendizado humano e artístico. O conceito estético do filme já começou a ser traçado em nossas conversas quando da adaptação do roteiro, o maior desafio era tirar de um espaço teatral, com um texto denso e profundo e transpô-lo para o espaço fílmico, no qual em quase sua totalidade se passaria dentro de uma casa e, teria que ser a casa, até porque neste filme a casa quase que assume significado de personagem. Num mundo onde estamos acostumados com ritmos acelerados, diversas locações, num primeiro momento, pode até parecer estranho, principalmente se pensarmos no contexto de exibição do circuito convencional de cinema, no qual impera o cinema de entretenimento.

Mas, realmente, isto jamais nos preocupou. Quem tem o privilégio de conhecer a alma de artista do Jackson, sabe que pra ele o que tem valor é a arte, e como toda arte tem um público e também toda arte pode conquistar um novo público, nos arriscamos a produzir um filme para aquele público interessado, quem sabe, em fugir um pouco do ritmo acelerado da indústria cultural e entrar em uma narrativa com outro tempo, já que esse filme é isso, um diálogo de tempos, de histórias, de vidas, de questões sociais que o texto do Milson Henriques trouxe à tona, pelas quais o Jackson se apaixonou e conseguiu transpor esta paixão para toda equipe e para todos aqueles que de alguma forma contribuíram para a realização deste filme. Em junho deste ano A Tímida Luz de Vela das Últimas Esperanças participou da Mostra Palcos e Telas, do Cinesul – Festival Ibero-americano de Cinema, que acontece no Rio de Janeiro, após a sessão, muitos e-mails emocionados sobre o filme foram enviados ao Jackson e à Cris, o que comprova que o Jackson sempre esteve certo em acreditar e fazer com que outras pessoas, entre elas a Cris, eu e Talicio, a Lúcia Talabi (a Antonieta no filme), apoiadores, coprodutores, em especial, toda equipe técnica e artística, acreditassem neste filme e em tudo que ele representa. No momento estamos inscrevendo-o para outros festivais, mas, muito em breve, pretendemos lançá-lo nos cinemas. Sintetizando, A Tímida Luz de Vela das Últimas Esperanças, filme de Jackson Antunes, por meio de uma interpretação honesta e de total entrega das atrizes Cristiana Britto e Lúcia Talabi, fala da terceira idade, de preconceitos de classe, de credo, de cor, de cumplicidade, de solidão, de sonhos e do que foi deixado de dizer e de viver. Para o Jackson a velhice é uma ponte que separa a mocidade de um tempo onde paramos para roer unhas, colher o que plantamos, entre Zizi e Antonieta, este elo ao longo da vida foi feito por dor, ódio, acúmulos de infelicidade. Deste conflito das personagens, surge o jogo de opressor versus oprimido, por vezes, este jogo se inverte, mostrando que nenhuma das duas mulheres são flores que se cheirem. Alfinetam-se o tempo todo, se apoiando nas fraquejas ou detenção do poder, para ferir e machucar.


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Salete Machado Sirino
Coadaptadora do roteiro e codiretora do filme A Tímida Luz de Vela das Últimas Esperanças, de Jackson Antunes.

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