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Assista aqui o último programa na íntegra!
Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
14-10-12
COLUNISTA CONVIDADO - João Inácio


Uma Ode à esperança

“... As casas tão verde e rosa e que vão passando ao nos ver passar
os dois lados da janela
E aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há
azul que é pura memória de algum lugar...
(Trem das cores, Caetano Veloso).
Caetano tem um jeito peculiar de escrever e suas composições imageticamente saltam em nossas mentes, como se estivéssemos em um cinema enquanto as cantamos. Mas além do aspecto literário, o que me chama a atenção de maneira particular nessa composição é que ela traduz a capacidade do artista em ver poesia nas coisas comuns da vida. E o mágico da arte é ser passageiro de um trem governado por um maquinista que nos desvenda possibilidades enquanto prosseguimos, não é?

Esse olhar positivo, essa compreensão de que as coisas são ruins “mas não há mal que dure pra sempre”, confesso que volta e meia ainda sinto falta em muitos filmes nacionais. Claro, cinema é arte, ponto de reflexão e reflexo da vida, mas também é ponto de encontro e, porque não dizer sem medo, de entretenimento e diversão.

Quando estava produzindo o documentário “TRUKS”, várias vezes me deparei com esse dilema, afinal, poderia seguir o senso comum e mostrar que era uma história de uma grupo de teatro infantil com seus bonequinhos, papai, mamãe, etc.Mas a realidade das filmagens me conduziram noutra direção (e isso é um dos grandes baratos de fazer um documentário!). No filme há um momento que acho realmente mágico. É quando mostro uma cena da peça big bang, em que primeiramente uma atriz ostenta uma placa onde está escrito “Homem Moderno” e sobre uma mesa escura há dois sacos lixo e vários pedaços de papel soltos a esmo. Manipulado por duas atrizes, um dos sacos “toma vida e engole alguns papéis” que estão soltos, e se mexe em direção ao outro saco de lixo que está inerte, e toca nele. Como nada acontece, pesaroso, volta ao lugar de origem quando o que estava sem vida se movimenta e passa a se alimentar dos outros pedaços de papel.Claro, é uma cena altamente metafórica e muitas interpretações podem ser tidas. Mas o que me atraiu nesse episódio foi que simbolicamente algo que não tinha vida por sua ação gerou vida em direção a um sentido existencial (no caso, nada mais natural a um saco de lixo que comer lixo). Vendo de perto a Truks e fazendo esse filme, percebi como é possível por meio da arte ver um problema real que afeta o expectador e convidá-lo à reflexão, abrindo todas as portas (as boas e as nem tanto) para que este decida o seu caminho.

Não estou defendendo um cinema ufanista e utópico. Vida é vida e a tragédia e a esperança são casas de uma mesma rua onde quem por ela passa escolhe onde pousar. Contudo, em um primeiro momento, a decisão de mostrar as possibilidades passa pelas mãos de quem escolhe traduzir uma história em filme e isso é de uma responsabilidade sem igual.

Confesso que durante um bom tempo fui um cineasta brasileiro que se recusava a ver filmes nacionais pela abordagem quase sempre depressiva e predominantemente trágica. Mas isso tem mudado e também podemos contemplar que, como toda história, também há um outro lado. Os belíssimos filmes “O contador de histórias”, de Luiz Vilaça, e o documentário “Doutores da Alegria”, de Mara Mourão, são alguns dos bons exemplos dessa possibilidade de conversar com o expectador e dizer “tá ruim, mas pode ser diferente” ... e graças a Deus sigo nessa mesma toada.

Termino como comecei, citando outra pérola do poeta Caetano Veloso:
Luz do sol
Que a folhatraga e traduz
Em verdenovo
Em folha,
em graça,
em vida,
em força,
em luz...


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João Inácio
Diretor cinematográfico, roteirista, formado e pós-graduado em comunicação. Pernambucano radicado em Brasília há mais de 30 anos, desde 2000 dedica-se ao audiovisual e com o longa-metragem TRUKS, em 2012, lançou-se ao mercado cinematográfico. No momento está trabalhando na pré-produção de um novo filme, o curta “As luzes de Bengela”.

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