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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
11-09-12
COLUNISTA CONVIDADO - Allan Ribeiro


ESSE AMOR QUE NOS CONSOME (uma pequena reflexão sobre meu encontro cinematográfico com a Companhia Rubens Barbot)

Quando conheci a Companhia Rubens Barbot, através de um trabalho onde filmei o espetáculo Quase uma história, em 2006, fiquei muito interessado no processo de criação de seus integrantes. Logo em seguida, conhecendo-os melhor, lembrei de uma frase de Antonin Artaud que dizia que é inconcebível uma obra de arte dissociada da vida. E comecei a enxergar na Companhia uma união plena entre seus cotidianos e o que era mostrado no palco.

Um ano depois, fui convidado para coordenar um projeto de restauração dos arquivos audiovisuais do grupo. O contato com este material em vídeo foi uma pesquisa espontânea sobre a história da Companhia. Pude assistir mais de 80% dos espetáculos antigos, tendo acesso a todos os talentosos nomes que passaram por esta história. Foi a partir deste momento que comecei um processo de admiração e parceria com eles. Sem eu perceber, estava criando fortes laços e afetos que viriam a se transformar em filmes mais adiante.

A vontade de fazer um primeiro curta-metragem com eles foi crescendo. Mas, não sabia exatamente como seria. Foi quando assisti uma performance intitulada Roteiro de Cinema e fiquei completamente emocionado. Nela, Gatto Larsen “enquadrava” Rubens Barbot com uma câmera imaginária e falava de clássicos do cinema, enquanto Barbot dançava de forma improvisada com uma saia de tecidos bordados.

Quando a cena acabou, percebi que as pessoas gostaram, mas não tanto quanto eu. Talvez eles não soubessem detalhes da vida daqueles personagens como eu sabia. Certamente, eles não tiveram a oportunidade de conversar por horas com Gatto sobre Cinema e nem soubessem que esta era sua original formação acadêmica e que “trocou” os filmes pela dança por estas mudanças e encontros que a vida nos impõe. Na minha cabeça se fechou um roteiro. Foi assim que nasceu, em 2009, o nosso primeiro filme em parceria: Ensaio de Cinema, inspirado nesta performance e na vida dos dois artistas, em que eles interpretavam a si mesmos. O curta foi filmado em apenas um dia, na casa dos personagens em Santa Teresa.

Sem me dar conta, estava trazendo para o meu processo criativo a dança, o teatro e a performance, que valoriza a criação no momento da filmagem, não se prendendo apenas a um roteiro extremamente rigoroso. Estava enfeitiçado por esta possibilidade de intercambio e experimentação. Os ritmos da Companhia estavam de fato entrando nos filmes. Em contrapartida, acredito que o grupo também queria aproveitar esta interferência cinematográfica em seus espetáculos.

Gatto Larsen sempre diz que cria suas cenas a partir de quadros de cinema em 35mm. O diálogo entre a sétima arte e a Companhia sempre existiu por conta de sua formação e paixão cinematográfica. No entanto, agora o audiovisual entraria nos espetáculos também com projeções, pois tinham em mim um colaborador criativo e técnico para estas novas possibilidades. Isso ocorreu de forma mais efetiva no espetáculo “Um Rio, de janeiro a janeiro”, em que são projetadas mais de uma hora de imagens durante o espetáculo. A importância destes vídeos era enorme já que o cenário possuia apenas três panos brancos onde se projetavam imagens da cidade do Rio de Janeiro, ou seja, os vídeos criados para o espatáculo se transformaram em um verdadeiro cenário com imagens em movimento.

No ano de 2012, após dirigir 9 curtas metragens, resolvi partir para o primeiro longa. Ter a Companhia Rubens Barbot por perto me deixava muito confiante e entusiasmado. Criei um roteiro em parceria com Gatto Larsen em que a locação principal seria a nova casa deles, um antigo casarão no centro da cidade, próximo a Praça da Cruz Vermelha, que eles batizaram de "Terreiro". Este local, recém-ocupado e com entulhos, estava sendo totalmente transformado pelo grupo. Era o cenário ideal para retratar a companhia. O símbolo do poder de criação, resistência e originalidade estava alí naquele espaço. O casarão, imponente, se transformou em um verdadeiro personagem dentro do filme.

Esse amor que nos consome foi filmado em 2011 e mostra a vida destes artistas que são possuídos pela criação cotidiana. São consumidos diariamente por esse amor inexplicável e que nos une. Na Companhia Rubens Barbot, a dança, a religiosidade, a vida e as performances me foram apresentadas como uma coisa só. Não sei onde termina a dança e começam os sonhos. A poesia e religiosidade estão juntas, contendo a tradição afro-brasileira e um olhar contemporâneo. A vida reune tudo isso, de forma harmoniosa e simples, apresentada nos palcos e agora nas telas. Assim como Antonin Artaud, eles representam suas próprias vidas, acreditam na proposta dos gestos honestos e não entendem o trabalho com o corpo de outra forma.

É uma grande honra e aventura estar junto com eles nesta história!


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Allan Ribeiro
Nasceu em 24 de julho de 1979. Formou-se em cinema pela Universidade Federal Fluminense em 2006, dirigiu e roteirizou 9 curtas-metragens, com destaque para ENSAIO DE CINEMA, O BRILHO DOS MEUS OLHOS e A DAMA DO PEIXOTO, que juntos receberam mais de 70 prêmios em festivais nacionais e internacionais. ESSE AMOR QUE NOS CONSOME é seu primeiro longa-metragem.

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