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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
09-08-12
COLUNISTA CONVIDADO - Otavio Cury


Constantino.

Neste filme, duas pessoas procuram algo. Entre elas, há um hiato de meio século. Uma delas, um velho árabe, busca manuscritos perdidos em bibliotecas empoeiradas. A outra busca, a minha, procura entender o significado de um livro. Em comum entre essas duas histórias, um poeta e dramaturgo que viveu em Homs no final do século XIX: Daud Constantino Al-Khoury, meu bisavô. Shakir Mustafa, o velho árabe, foi Ministro da Informação em Damasco em 1964. Foi ele quem achou os manuscritos perdidos de Daud. Foi ele quem publicou o livro. Sua busca é um dos eixos do filme. No prefácio do livro, ele diz: "a lanterna de Diógenes estava se apagando em minhas mãos", referindo-se ao filosofo grego que, tido como louco, buscava com uma lanterna nas manhãs de Atenas alguém que soubesse a verdade. Sua busca era também louca: encontrar os manuscritos de um escritor de Homs que escreveu no final do século XIX. A minha busca começa por acaso, na manhã de 11 de setembro de 2001, quando cheguei com minha família em Damasco para uma viagem de turismo. Na única noite que passamos em Homs, mencionamos o nome de Daud para um estranho na rua. Horas depois o livro viria até nós. Entre as duas buscas do filme, camadas de tempo se sobrepõem. A reconstituição da viagem de 2001. A tradução em São Paulo. Os poemas e os personagens das peças de teatro de meu bisavô. A volta à Síria em 2009. Deslocados de seu sentido original, essas camadas vão sugerindo novas relações. Como a professora de história do teatro na Universidade de Damasco, surpresa ao ler pela primeira vez o livro. Ela me faz uma pergunta: por que nós (na Síria) não temos nenhuma edição desse livro? Quem responde é o próprio livro.

Assim se sucedem as camadas, e as perguntas se sobressaem às respostas: a rua que nunca se encontra, o nascimento do teatro árabe, a fé e as aparições da Virgem, o preconceito com os árabes, a imigração. Como que entrelaçados, esses caminhos nos sugerem uma viagem. E como na literatura fantástica, as vezes nos deixamos levar sem saber muito bem aonde estamos indo.

No final do filme, somos todos um só: Shakir Mustfa, o ministro sírio, Otavio Cury, o bisneto brasileiro, e seu bisavô Daud. Todos nos encontramos nas ruínas da memória. Isso é Constantino.

Terminei a edição do filme junto com o começo das revoltas por liberdade no mundo árabe. Num primeiro olhar Constantino parece passar despercebido pelas mudanças que viriam a eclodir na própria Homs de Daud. Mas o filme sugere outra coisa: não haveria semelhanças demais entre a Síria ocupada pelos otomanos no século XIX com a Síria que luta por democracia no século XXI?


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Otavio Cury
Otavio Cury nasceu em São Paulo em 1971. Formou-se em Agronomia pela USP em 1994. Seu primeiro trabalho como diretor foi o Documentário Cosmópolis (2005). É sócio da produtora Outros Filmes, em São Paulo.

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