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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
27-07-12
COLUNISTA CONVIDADO - André Luiz


SAGRADO SEGREDO

Sagrado Segredo é a expressão da minha imperfeição artística como buscador espiritual sincero e obstinado. Dentre todos os caminhos que trilhei em busca da identidade mística subjacente à minha personalidade inquieta e pretensiosa de artista, foi no gnosticismo que encontrei maior identificação. Refiro-me à gnose não como uma religião, seita ou doutrina e sim como um conhecimento, uma experiência, associados a uma sensibilidade religiosa.

O filme começou a ser rodado em 16mm na semana santa de 1999 como um documentário, sob o ímpeto inicial de registrar um evento religioso e popular - A Paixão de Cristo -, nas cercanias de Brasília, mais precisamente na cidade de Planaltina; porém aos poucos, a partir do mergulho que me permiti dar em direção ao mais profundo de mim durante as filmagens, ele foi se foi tornando um “filme busca”, um “filme espera”, um “filme caminho” até transformar-se num “filme encontro” sem antes ter passado pelo tão conhecido “filme trauma”, que todos cineastas conhecem.

Quando pensei em realizar esse projeto de documentário, ainda não sabia que ele iria transformar-se em um longa-metragem, meio documentário e meio ficção; sabia apenas que não estava querendo fazer mais um filme; estava sim, querendo provocar uma experiência de autotransformação trabalhando sobre o tema específico da espiritualidade que era o desdobramento natural e inevitável da minha vida depois do processo, experiência, filme, livro, “Louco por Cinema”. O surgimento do tema, focalizado em Jesus Cristo foi somente uma questão de tempo, sincronia e afinamento com o meu estado de espírito, afinal, esse personagem maior, querido e emblemático já estava latente e sendo trabalhado em mim desde a infância - sem que eu mesmo soubesse - como um sagrado segredo. Foi um momento de grande euforia quando percebi que estava me envolvendo também “artisticamente” com esse tema e extraordinário personagem. Sentia estar penetrando um assunto delicado, desafiador, complexo, controverso, que exercia sobre mim uma atração irresistível desde muito tempo e para o qual não havia como resistir, pois, havia me preparado - sem o saber e compreender - durante muitos anos. Realizava que finalmente poderia aprofundar as perguntas que sempre me inquietaram a respeito de Jesus Cristo e o que Ele trouxe para esse estranho mundo em que vivemos. Quem verdadeiramente Ele foi? Que significado teve sua vida e sua morte? Porque se tornou a figura mais proeminente do Ocidente? Que poder é esse concentrado em uma só figura? Porque os homens e as igrejas deturparam tanto a sua imagem e ensinamentos? Tudo isso era um mistério que prometia me ser revelado e que de uma meneira ou de outra estaria no filme. Mas o que eu não sabia era que antes disso, teria que descer ao que os místicos ocidentais chamam de “a noite escura da alma”. Teria que me expor como nunca antes havia feito e passar por muitas dificuldades para, por fim, descobrir um imenso amor por e Ele e, em consequência disso, revelar (no filme) um propósito genuíno de comunhão amorosa com as pessoas e com a arte e com a vida, sem mistificação – como Ele propôs.

Mergulhar no personagem Jesus Cristo como tema principal de um filme representava para mim, o remate de uma vida inteira voltada para a busca espiritual; era a primeira vez que colocava explicitamente o tema da espiritualidade em um dos meus filmes de longa metragem embora, todos contivessem essa busca implícita, em muitos aspectos, inconsciente. Com paciência, urgência e ardência no coração dediquei-me a realizar este filme, sem os recursos mínimos necessários, porém motivado pelo amor presente, imenso, conquistado e constante, ao mito, ao símbolo, ao personagem Jesus Cristo.

Mudei de rota muitas vezes, ora tendendo para o documentário, ora para a ficção e acabei trilhando o caminho do meio, caminho este que me permitiu chegar ao formato externo que cheguei sem me trair em busca de resultados alheios ao meu propósito interno de ser honesto e fiel aos meus sentimentos e reflexões. Tentei isentar-me ao máximo de considerações externas (egóicas) tendenciosas que poderiam me levar a uma situação mais confortável, controlável e sem riscos; evitei. Tentei distanciar-me de colocações teológicas dogmáticas estrangeiras à minha experiência individual; afastei-me de críticas severas às instituições religiosas anacrônicas como à Igreja Católica, todas cabíveis e pertinentes, mas que, se as fizesse, por isso mesmo, acabariam sendo valorizadas; ao contrário, procurei deixar passar uma corrente de amor fraterno e verdadeira solidariedade, fazendo-me veículo para deixar transparecer o desejo de comunhão que Ele mesmo trouxe ao mundo como exemplo na Sua Paixão. Não sei se consegui passar isto no filme, mas este foi o propósito que me guiou e me sustentou ao assumir todos os riscos decorrentes dessa postura.


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André Luiz
Nasceu em Salvador, Bahia, no dia 04 de Fevereiro de 1948. Foi um dos fundadores do Cinema Marginal com o filme Meteorango Kid, o Herói Intergalático. Filmou no Rio Araguaia A Lenda de Ubirajara, adaptação livre do clássico de José de Alencar. No VIII Festival de Brasília, em 1975, ganha os prêmios de Melhor Roteiro e Especial do Júri, e, também, o Coruja de Ouro de Melhor Fotografia e Cenografia (prêmio máximo da cinematografia brasileira da época). Escreveu e dirigiu Louco por Cinema. No XXVII Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 1994, ganha diversos prêmios, entre eles o de Melhor Filme e Melhor Diretor. Além dos roteiros de seus próprios filmes, escreve, entre outros, os roteiros dos longas metragem Retrato Falado de Castro Alves (Silvio Tendler, 1999) e João Cândido – O Almirante Negro (Tânia Quaresma, 2008) e assina a trilha do filme Um certo Agostinho da Silva (João Rodrigo Silva, 2009).

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