Quartas, às 24h, na TV Brasil
(Canal 2, 18 NET, 166 SKY)
DIRETO DO TWITTER: 

Assista aqui o último programa na íntegra!
Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
19-07-12
COLUNISTA CONVIDADO - André Warwar


Lendas do Deserto

Estava no estúdio de TV, sentado esperando para gravar uma das 30 cenas que tínhamos naquele dia. No meio daquela confusão, entra e sai de cenógrafos, assistentes de arte arrumando o cenário, grua sendo posicionada, diretor discutindo, contra-regras martelando tapadeiras, produção querendo gravar, os atores chegando rindo, olhei pro meu estagiário e disse “como vim parar aqui?” Pra mim não fazia o menor sentido estar ali. Televisão para o artista é a arte da frustração. Quando está mais ou menos está bom, quando está bom, está ótimo. Para o diretor de imagens então, que é a função que exerço na TV, nem se fala. O bom diretor de imagens é aquele que de acordo com a marcação de cena do diretor “artístico”, posiciona câmeras, (usamos quatro câmeras simultaneamente mas só gravamos o “corte “que é a sequencia de tomadas que o diretor de imagens escolhe enquanto se realiza a cena) e na hora de gravar determina os enquadramentos, movimentos de câmera, e realiza o “corte” que é a montagem da cena enquanto ela acontece, como disse. Isso na teoria. Na pratica o diretor artístico fica do seu lado falando, “vai à três, vai na dois!”. As vezes entra alguém no switcher e fala, “nossa como a 1 está linda” e o diretor do lado “Vai na 1!” Meus deus, toda a vez que se muda um corte, todo o resto da decupagem esta comprometida. Não se muda um plano numa montagem sem deixar de relaciona-lo com o seguinte e assim por diante.

A época dos grandes diretores de imagens se foi e viramos mesmo é apertador de botões. “Vai na três, Vai na dois!” qualquer criança de dez anos que tenha um Playstation vai fazer muito bem.

Bom isso tudo é porque ando um pouco amargurado com a profissão mesmo, mais ainda tenho bons momentos quando trabalho com grandes diretores.

Voltando a questão que fez com que escrevesse tanto sobre o que provavelmente só eu entendo,Como fui parar ali,no meio do estúdio.Para que faço cinema?

Ando pensando muito nisso. Sim porque depois de ter sido ator dos meus 14 aos 18 anos fui trabalhar no comercio. Fiz de tudo. Tive uma locadora de vídeo, loja de acessório para automóveis, fui vendedor de tecido, tive um birô de serviços de informática, confecção de camisas, sei lá mais o que. Tudo bemo cinema sempre fez parte da minha vida. Tinha um amigo, Alexandre Ghasi, que adorava cinema. Ele era um pouco mais velho e estava sempre botando pilha na molecada pra ir ao cinema. Víamos “Lili Marlene “e depois assistíamos aos “Bons Companheiros”. Saiamos de um cinema e entravamos em outro. Isso foi na época do Opera 1 e Opera 2, na praia de botafogo.

Gostávamos muito de ir também ao Largo do Machado.

Aos vinte e oito fui estudar cinema. Era um momento de mudanças na vida e finalmente decidi fazer alguma coisa que me desse prazer. Não estava preocupado com grana, estava a fim de ser “artista”.

Refletindo sobre como resolvi tomar esta decisão, me dei conta que acabei no cinema, sim porque televisão é o que faço para vier,mas o que alimenta minha alma de artista é o cinema, Só consigo pensar no meu Pai.

Ele era palestino e veio pro Brasil por acaso aos 17 anos. Na verdade quando ele saiu de Nazaré, sua cidade natal, com um alizee-passer, que é uma permissão só para sair, passou da fronteira não tem mais volta, com a intenção de ir para a Austrália. Quando chegou no porto, já no Líbano, só tinha passagem para um lugar chamado Brasil.

E foi assim que ele veio parar aqui. Chegou em santos e ficou lá por três meses achando que estava em São Paulo. Não falava português. Só árabe, e inglês que aprendeu indo ao cinema. Pois é, lá na Palestina em meio a guerra eocupação a criançada ia ao cinema. Era um momento para fugir do caos e da violência. Dentro da sala escura, diante daquelas imagens, eram pura magia. Ele me contava que muitas vezes, sem dinheiro, ele e os amigos escolhiam um para irritar o bilheteiro. Quando resolvia correr atrás do moleque o resto corria pra dentro do cinema. Também me contava que no final das sessões lotadas, aproveitavam e na saída, no meio daquela gente toda, pra entrar de costas, numa espécie de Moonwalkcinéfilo. O cinema desde muito cedo fez parte da vida dele. Foi uma forma de fugir dos problemas, do sofrimento, e das adversidades, sonhando com as estrelas de Hollywood. Gostava muito de levar eu e meus irmãos a sessão Coca-cola, no drive in que tinha na lagoa. Eram desenhos animados, regados a refrigerante de graça.Fui ao cinema com ele pela primeira vez ver “Guerra nas Estrelas”. Foi uma tarde linda, dia de semana, meio escondido, acho que devia estar estudando, sei lá. Aquelas imagens ficaram grudadas na minha retina. Aquilo marcou muito a minha relação com meu Pai. Momentos. Meu pai também adorava contar historias. Sempre que eu tinha um problema, em vez de me dar uma solução pronta, contava uma “Lenda do Deserto”. Sua prosa era cinema puro.Fotografo amador, teve uma produtora de vídeo, e adorava ir ao cinema. Viu Linch muito antes do que eu. Vivia falando “No ay Banda”. Quando queria voltar a terra dele, assistia a “Ben-Hur”.

Tudo isso me marcou muito. Meu pai não tinha uma historia de vida, tinha uma Saga. Alias vou contar um dia em umdocumentário.O que foi mesmo fundamental neste meu delírio de fazer cinema, foi seu apoio, incondicional a minha escolha. No fundo, no fundo, meu pai queria ser diretor de cinema. Acho que se ele tivesse nascido no Brasil, filho de palestino, ia ser este seu destino. Era meu fã. Adorava ir aos sets me ver. No meu segundo filme, “Cena 1” dirigiu uma cena comigo, e deu uma ideias geniais. Já no fim da vida, muito doente, quando estava em casa, e não no hospital, passava as tardes vendo filmes. Foi assim cresceu viveu e morreu tendo a vida marcada pelo cinema.

Toda vez que dirijo uma cena, tenho sempre na cabeça o seguinte: “O que meu pai vai achar?”.

É isso, faço cinema para meu pai.


image

André Warwar
Inciou sua carreira áudio visual como editor e graduou-se em cinema, quando dirigiu o curta, A Truta, premiado em diversos festivais. Dirigiu, roteirizou e produziu seu o curta Cena 1, que participou do Festival de Cinema Brasileiro Contemporâneo da Universidade de Brown, nos EUA. Entrou para a TV Globo aonde exerce hoje a função de diretor de imagens. Retorna agora ao cinema em mais uma parceria com Celso Taddei, num projeto independente em que mescla seus conhecimentos de linguagem cinematográfica com a rapidez e o senso pratico que o trabalho em televisão lhe deu.

REALIZAÇÃO
image
EQUIPE
REVISTA DO CINEMA BRASILEIRO é uma produção independente, em co-produção com a TV pública brasileira - TV Brasil, focada na diversidade do audiovisual brasileiro.
APOIO TÉCNICO


Desenvolvido por HERCULA