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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
12-07-12
COLUNISTA CONVIDADO - Lúcia Murat


Por que fazer cinema.

Todas as vezes que me pedem para fazer um artigo sobre cinema, minha tendência é começar a discutir nossos problemas com a burocracia, com a produção ou a quase tragédia que é distribuir um filme brasileiro nesse mercado fechado e com regras tão definidas que um independente efetivamente não tem vez (Basta a gente lembrar que, nessa semana, das 2500 salas existentes no país, 1750 estão ocupadas com apenas 3 filmes, todos é claro, blockbusters made in USA) .

Mas nesse momento em que estou distribuindo “Uma longa viagem”, que apesar de todos os problemas citados acima, foi tão bem recebido, me sinto na obrigação (e desejo também) de falar de outra coisa. Afinal, se é tudo tão precário e difícil porque eu faço cinema? Não devo (ou não posso) ser tão louca ou auto-destrutiva.

Tem, é claro, alguma coisa que é fascinante e por isso você continua. Com prazer. E pelo prazer. Esse momento seria aquele em que você se sente Deus? Que você grita ação e as luzes artificiais permitem que uma nova vida, se crie.? ( Mas hoje nem é mais você quem grita ação, é o seu assistente – meu deus, até isso nos tiraram). Não, sem delírios. Você não é Deus.

Mas você tem algo parecido com Deus que fez a terra em sete dias, sete diferentes dias. Você consegue criar e não fazer tudo igual todo dia. E durante muito mais que sete dias. Cada filme é um, único e exclusivo, e é longo, muito, muito longo. Portanto tem camadas e camadas de prazeres incríveis que te surpreendem o tempo todo. Como transformar aquela idéia num roteiro? São tantas as possibilidades, ações podem ir por tantas caminhos. Qual a melhor? Será que essa é possível? E depois de meses , quando descobre que aquela cena genial que você escreveu não tem nada a ver com o roteiro que você fez, o que fazer? Por acreditar que o roteiro está mais genial ainda, você corta aquela cena fantástica. Meu deus, que agonia! Mas seguir em frente é achar que resolveu. Meu deus, que prazer. Resolveu!

Aí, o que fazer com aquele monte de palavra?. São palavras., que podem se perder no vento ou podem vir a ser tantas coisas. Você sabe que um roteiro é apenas um rascunho de um filme. Começa tudo de novo, como se estivesse no zero, mesmo que você tivesse ficado anos fazendo aquele roteiro. E na busca por transformar aquelas palavras em imagens e interpretações, você acaba descobrindo que são milhares as possibilidades. Vê milhares de filmes que de alguma maneira tem a ver com aquela história, aquela narrativa, aquele tema. Você tenta, discute com a equipe, define conceitos. E parece que nada se encaixa. Mas aí você acha que teve uma idéia genial. Ou alguém da sua equipe tem aquela idéia que você considera ideal e parece que tudo se resolveu. Que prazer, que sensação que tudo vai dar certo.

Essa busca, que é única e inigualável, dura anos porque também não acaba na filmagem, nas milhares de decisões que você tem de tomar por dia ( -Filmagem aliás é tudo isso elevada a enésima potência porque exige rapidez, tem tempo marcado para a criação, para se reinventar a cada minuto do dia. ).

E depois, na edição, mesmo que muito mais calmo, os dias continuam sendo sempre diferentes. Apenas o tempo ralenta. São milhares de horas de material. Tantos filmes possíveis, novas decisões a serem tomadas.

Um último corte e o filme parece pronto; você acha que está quase pronto quando na edição de som você vê o quanto tudo pode mudar com os ruídos, com a música, com o silêncio...como opção. E na mixagem então, não tem mais volta, você esta com a decisão final em suas mãos. Mas nos últimos momentos, o filme ainda está se definindo e você de novo faz opções, redescobre coisas naquelas três semanas. Mais música, menos música. Mais tensão, menos tensão...

Finalmente, a cópia. E um filme que vai ser apresentado dali a pouco num festival. Três, quatro anos depois, ele está lá, enfim pronto. Mas não é mais seu. Cada um vai ver o filme que quer ver. Com a referência da sua vida, de seus medos, e de seus afetos. E você se despede.
Um vazio.

O que fazer? Mas aí no meio da rua aquela cena estranha. E você para, pensa, tem uma ideia interessante. Quem sabe dá um roteiro?


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Lúcia Murat
Depois de trabalhar, como jornalista, nos mais importantes jornais e televisões do país, como Jornal do Brasil e O Globo, começou a se destacar, a partir dos anos 80, com produções independentes na área audiovisual. No cinema se destaca com filmes premiados como "Que Bom Te Ver Viva", "Quase Dois Irmãos" e "Uma Longa Viagem".

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