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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
21-06-12
COLUNISTA CONVIDADO - Roberta Canuto


AO MESTRE COM CARINHO

Quando perco uma pessoa que transcende a admiração intelectual e ganha o terreno do afetivo, tento preencher a lacuna que se abre silenciosamente em mim por um fio que procura pistas em minha memória, como fotogramas que automaticamente tento ordenar em uma sequência imaginária, e foi o que fiz quando soube da morte do Carlos Reichenbach, pra mim Carlão. Não me vieram seus filmes, mesmo que eu tenha especial admiração por sua obra, me veio a sua imagem, a sua voz e, sobretudo a sua gentileza e generosidade.

Conheci o Carlão quando ainda estudava jornalismo em Belo horizonte, nos últimos anos do curso eu me apaixonei perdidamente pelo cinema marginal, que conheci através do livro do Fernão Ramos e depois pelo Cinema de Invenção do Jairo Ferreira. Este último trazia em suas páginas aqueles diretores plenos de vida, cada um era para mim uma chama que incendiava aquele novo cinema que eu descobrira. Rogério Sganzerla, Julio Bressane e Carlos Reichenbach me encantaram pela força como defendiam um cinema livre, sem limites.

Nesta época soube de um curso de roteiro que teria Carlão entre os seus professores, eu imediatamente me matriculei, e lá o conheci, aquela menina meio boba e muito encantada, se aproximou daquele cara de voz grave, óculos de lentes imensamente grossas e generosidade absurda, e falamos longamente sobre cinema. Aquilo foi o começo do meu entendimento do significado maior do cinema, da liberdade incondicional que ele pede, da transposição dos limites e das fronteiras entre as artes, da poesia arrebatadora que se esconde entre um e outro enquadramento. Nunca mais me libertei deste sentimento, deste encantamento, desta plenitude que o cinema me causa.

Encontrei o Carlão muitas vezes depois, e ele sempre foi hipnoticamente irresistível, e impressionantemente jovem, como se soubesse o segredo do tempo, ele era cada vez mais próximo da imagem que cultivei do que idealizo ser um artista de espírito livre, daqueles que salvam a arte de todo pragmatismo que possa sufoca-la.

Um dia em um arrebatamento etílico eu lhe disse: “Você é o cara mais bacana do cinema brasileiro! “, ele riu, deve ter achado engraçado como aquela menina meio boba e muito encantada continuava assim, meio boba e muito encantada. Talvez porque muitos filmes, inúmeras entrevistas e encantamentos depois, ele era para mim um dos caras que girou a chave do meu amor livre sobre o cinema brasileiro, provocando em mim esta reversão do tempo, este súbito reencontro com si mesmo que acho eu, ele sabia o segredo.

Este ano eu perdi dois mestres, ambos professores e cineastas; Jose Americo Ribeiro e Carlos Reichenbach, cada um a seu modo deixou meu baú de memórias mais triste e minha esperança em um cinema que me arrebate mais frágil... Um pelo viés explosivo da tela, dos filmes poemas, da coragem de se lançar no abismo da invenção e o outro pelo ensinar, pelo amor em compartilhar o que se sabe, e sobretudo por dividir com os alunos um combustível inesgotável de fidelidade ao cinema.

O mundo ficou mais sem graça, esteticamente mais comportado e certamente menos encantado.

Roberta Canuto


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Roberta Canuto

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