Quartas, às 24h, na TV Brasil
(Canal 2, 18 NET, 166 SKY)
DIRETO DO TWITTER: 

Assista aqui o último programa na íntegra!
Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
24/05/10
COLUNISTA CONVIDADO - Evaldo Mocarzel


Cinema de Guerrilha

Não é mais nenhuma novidade afirmar que as novas tecnologias digitais estão promovendo uma verdadeira revolução no cinema contemporâneo. Sendo uma arte industrial, a linguagem cinematográfica não pode promover uma revolução estética sem uma revolução tecnológica que lhe dê respaldo.

Sempre foi assim na História do Cinema. Nos anos 60, por exemplo, as câmeras Arriflex 16 mm e os gravadores Nagra possibilitaram uma revolução que gerou movimentos inovadores como o Cinema Direto norte-americano e o Cinéma Vérité de Jean Rouch, tendo esse último se capilarizado em momentos seminais da arte cinematográfica, como a Nouvelle Vague e o nosso Cinema Novo.

Nos anos 70, ainda havia um grande preconceito contra o vídeo e, em "Salve-se Quem Puder: A Vida", de 79, essa metamorfose ambulante chamada Jean-Luc Godard chegou a criar uma personagem que escreve o seguinte na lousa: "Cinema, Abel; Vídeo, Caim". Como se o vídeo fosse assassinar o cinema. O próprio Godard foi um dos primeiros a se converter ao vídeo, realizando anos depois um vídeo apaixonante como "Scénario pour Le Film Passion", entre outros trabalhos.

O fato é que hoje, com as novas tecnologias, nem mesmo a mais nababesca produção hollywoodiana pode prescindir do digital em seu processo de finalização. No campo da ficção propriamente dita, Aleksandr Sokúrov, graças às novas mídias de captação, construiu talvez a maior mise-en-scène de toda a História do Cinema: "Arca Russa", um plano-sequência com 95 minutos de duração, sem cortes ou dissimulações de cortes.

Hitchcock bem que tentou em "Festim Diabólico" fazer um filme praticamente sem cortes, mas as filmagens tinham de ser interrompidas quando os rolos de negativos terminavam. Peço licença ao mestre Luchino Visconti, que também fez memoráveis mise-en-scènes na História do Cinema, mas "Arca Russa" é um esplendor de encenação: duas orquestras sinfônicas, o corpo de baile do Kirov e mais de três mil figurantes espalhados pelo suntuoso museu Hemitage, em São Petersburgo.

Sokúrov é tão monarquista que, para focalizar três séculos de História do seu país em "Arca Russa", decidiu virar as costas para um dos momentos mais marcantes da arte cinematográfica, a chamada Escola Soviética, até hoje imbatível no campo da experimentação de linguagem com a montagem, de onde surgiram nomes geniais como Eisenstein e Dziga Vertov, entre outros. Em "Arca Russa", Sokúrov usou um hard-disc capaz de armazenar em tempo real 95 minutos de som e imagem. Um filme politicamente polêmico, pois o cineasta russo termina de contar a História do seu país justamente no momento em que os bolcheviques invadiram a festa dos Romanovs, antes da Revolução de 17. Mas "Arca Russa" é, com toda certeza, um divisor de águas do cinema contemporâneo, graças ao digital.

Ainda no campo da ficção propriamente dita, não faltam cineastas importantes e corajosos que estão trilhando os novos caminhos linguísticos abertos pelas novas tecnologias digitais, como Michael Mann, Brian De Palma e David Lynch, que, com "O Império dos Sonhos", todo captado em digital, criou um outro divisor de águas na cinematografia mundial, extraindo texturas e uma plasticidade estonteante com as novas tecnologias.

A película jamais vai morrer. Permanecerá como uma linda possibilidade de textura de imagem, com a sua definição insuperável e os seus inebriantes grãos de prata. Mas a revolução do digital é um fato incontestável.

No campo da ficção de representação do "real", ou seja, o filme documentário, as novas tecnologias estão abrindo caminhos que vão desde a possibilidade de fazer cinema de observação praticamente em tempo real até uma espécie de auto-etnografia de tantos grupos sociais, minorias ou não, que estão se filmando, documentando as próprias comunidades, reivindicando e se apropriando do direito de construir a própria imagem nesse mundo internético em que vivemos.

O digital tirou da classe média o poder do discurso cinematográfico. Nos anos 60, havia uma tendência muito grande à romantização do "povo" brasileiro também porque, além do contexto político, a democratização audiovisual não era possível com filmes captados em 16 mm. Foram realizados documentários importantíssimos, digníssimos, belíssimos e extremamente necessários como o seminal "Viramundo", de Geraldo Sarno. Mas hoje os tempos são outros.

O digital não é apenas uma revolução estética, cinematográfica, mas uma revolução de costumes em todo esse turbilhão de imagens captadas em casamentos e festas de aniversário, entre outras atividades do nosso dia-a-dia. Mais: a nossa percepção contemporânea do "real" tem textura de vídeo digital, imagem captada no celular e postada na internet. Nos anos 60, Pasolini comentou que a "realidade" é colorida, mas que o preto-e-branco era muito mais "realista". Naquela época, nossa percepção do "real" num filme documentário tinha a ver com uma estética em preto-e-branco, que, nos dias de hoje, virou uma tremenda estilização de linguagem. Volto a dizer: o "real" hoje tem cara de vídeo digital.

Mesmo fazendo essa apologia apaixonada das novas tecnologias, há efeitos colaterais deploráveis como a banalização do ato de filmar. No entanto, a democratização do universo audiovisual é evidente, e hoje é possível fazer um grande filme com uma mini-dv, desde que a precariedade se torne linguagem. É esse o pulo do gato. Nos dias de hoje, é possível filmar, no melhor estilo do chamado "cinema de guerrilha", montar num computador doméstico e depois exibir na internet. Nada contra o fortalecimento do nosso cinema comercial, da nossa eternamente embrionária indústria de filmes, mas o digital está aí para nos mostrar que a arte cinematográfica não precisa mais ser privilégio de poucos. Cinema de guerrilha no monitor da câmera, e vamos tentar desvendar os mistérios desse mundo cada vez mais imagético que nos envolve.


image

Evaldo Mocarzel
Jornalista, estreou na direção de longas com o documentário "À Margem da Imagem", primeiro de uma tetralogia que compõem o retrato do Brasil urbano. Recebeu inúmeros prêmios pelos festivais que participou. "À Margem do Lixo", "À Margem do Concreto" e "À Margem do Consumo" são outros títulos de Evaldo, um observador atento às questões urbanas do cotidiano brasileiro. Atualmente Evaldo Mocarzel é professor do curso de cinema da Escola Superior Sul Americana de Cinema e Televisão do Paraná, nas disciplinas Documentarismo e Fundamentos da Direção, além de ministrar vários cursos e oficinas pelo Brasil.

REALIZAÇÃO
image
EQUIPE
REVISTA DO CINEMA BRASILEIRO é uma produção independente, em co-produção com a TV pública brasileira - TV Brasil, focada na diversidade do audiovisual brasileiro.
APOIO TÉCNICO


Desenvolvido por HERCULA