1977 - Cine Bahia, Salvador
Glauber Rocha documentava a pré-estréia do longa-metragem "Tenda dos Milagres" dirigido por Nelson Pereira dos Santos e adaptado do livro homônimo de Jorge Amado. O escritor aparece abraçando Tizuka Yamasaki, na época assistente de direção de Nelson, enquanto os salões do cinema fervilhavam com convidados, cineastas e intelectuais. A seqüência entraria no filme "JORJAMADO NO CINEMA", que Glauber fez sobre Jorge, seu padrinho, seu amigo. O documentário anunciava o que eu viria a descobrir anos depois: o cinema fazia parte da vida e da obra de Jorge Amado.
1995 - Feira de Santana, Salvador
O cinema brasileiro vivia o anúncio da "retomada". Eu tinha então 18 anos e estava dando meus primeiros passos no cinema. Jorge Amado, meu avô, meu confidente, foi um grande incentivador da minha carreira.
Cacá Diegues filmava "Tieta do Agreste" e recebeu o escritor no set para uma participação especial no filme. Foi neste encontro, em Feira de Santana, que Jorge me deu a pista que faltava para entender sua relação com o cinema: ele revelou que, quando jovem, seu grande sonho era ser cineasta.
1976 - Largo do Pelourinho, Salvador
Três equipes de filmagem se esbarravam nas ruas de Salvador. Marcel Camus adaptava "Pastores da Noite" no filme "Otália da Bahia" , Nelson Pereira dos Santos filmava "Tenda dos Milagres" e Bruno Barreto dirigia seu "Dona Flor". Nessa época, eu também estive nos sets, desta vez na barriga de minha mãe, mas ouvi tantas histórias...
Um grande gerador veio da França de navio para o filme francês. Uma buzina apitava forte e Marcel Camus gritava "Moteur!" . Enquanto isso, o cineasta chileno Jorge Duran, na época assistente de Barreto, anunciava no megafone com forte sotaque espanhol "Silencio, vamos a empezar" . Nelson Pereira, por sua vez, entrava ele próprio batendo palmas e pedia "Silêncio, por favor, que vamos rodar", um silêncio sepulcral se fazia no set e ele comandava: "Ação!" .
2008 - Cidade Baixa, Salvador
Trapiche, cenário principal de "Capitães da Areia"; chegou então a minha vez de falar "Ação!". Herdei do meu avô o sonho da sétima arte e portanto foi mais do que natural adaptar um livro seu na minha estréia na direção de longas. "Capitães da Areia" foi também o objeto de desejo de muitos cineastas e o livro da juventude de milhões de brasileiros. Um romance arrebatador e extremamente cinematográfico, nós podemos imaginar o porquê.
A equipe do Capitães, por sua vez, também cruzou com a equipe de "Quincas Berro D'Água", filme de Sérgio Machado, pelas ruas de Salvador, repetindo o feito de 1976. Seria uma nova safra de adaptações ou a perpetuação do antigo caso de amor de Jorge Amado com o cinema? Vale conferir.
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Cecília Amado |



