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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
20-03-12
COLUNISTA CONVIDADO - Antonio Carlos (Tunico) Amancio


Para além dos sombreros e dos chapéus de couro.

Argentina, Brasil e México são historicamente as cinematografias latino-americanas de maior visibilidade, por força da constituição de seus mercados e das políticas públicas que os organizaram. Embora a tríade tenha este peso, ela é muito pouco articulada entre si e tem se esquivado de estabelecer possíveis estratégias comuns de comunicação e integração. Uma interface efetiva e mais rigorosa entre seus componentes industriais e institucionais talvez pudesse intervir de modo positivo em suas dinâmicas de atuação, mas o resultado pífio das tentativas já feitas (caso do Mercosul e de suas agências para o cinema), não abre muitos caminhos para a esperança.

Sendo potências de criação e de formulação de ideias e tendo um diálogo intenso – para o bem e para o mal – com as sociedades de onde emanam, estas cinematografias têm sido um desafio para o pensamento acadêmico, observadas de uma prudente distância e consideradas como máquinas de produção de imaginário. Este motivo levou um grupo de pesquisadores da Universidade Federal Fluminense, que abriga há mais de quarenta anos um curso de cinema reconhecido nacionalmente por sua excelência, a criar a PRALA, uma plataforma de reflexão sobre o audiovisual latino-americano, destinada a se debruçar sobre questões afetas à produção de sentido pela via da imagem e do som. Como cartão de visita, o grupo acaba de lançar o livro Brasil-México: aproximações cinematográficas (Niterói: Eduff, 2011), em que se busca pontos de contato entre produções dos dois países, acrescidos de contribuições de autores mexicanos também da academia. Tentou-se fugir da armadilha da ênfase no cinema já legitimado historicamente para se ousar pensá-lo também em sua contemporaneidade. São 11 artigos (oito brasileiros e três mexicanos), que lidam com a história, a política, a estética e a cultura. Reflexões como a revisão da historiografia oficial sobre a Edad de Oro do México, na constituição de seu projeto de estado-nação e seu respectivo processo de industrialização ativado entre os anos 30 e 50, refletido nas comédias rancheras, nos melodramas e até mesmo nas emanações metafísicas de um Luis Bunuel. Um traço de modernidade sistematizado em três momentos em que se tematizou um “nacionalismo gritante’, definido por variados mecanismos retóricos e sólida estrutura empresarial.

Tempo de Emilio Fernandez, de Gabriel Figueiroa, Jorge Negrete, Pedro Armendáriz, Maria Félix, Dolores del Rio, Cantinflas e Tintán. Deste período vão ser analisados, por outros autores, outros aspectos marcantes, como o melodrama familiar, pontuando nele o lugar da sala de jantar, espaço do exercício da autoridade e da instância moralizante. Ou trazendo à tona as semelhanças entre os remakes brasileiro e mexicano de Sansão e Dalila, a celebração bíblica de Cecil B. de Mille e as paródias em que Oscarito e Tin Tan representavam o apagamento do corpo docilizado por Hollywood, trocando-o pelo pícaro gingado da rumba, da cúmbia e do samba. Reinvestiduras de sentido como o fazem também os fans de filmes de lutadores, os admiradores de Santo, El enmascarado de plata, cujo prestígio sobrevive ao fim da época de ouro e gera, no passado recente, as premissas estéticas de vídeos disponibilizados na internet. Do mesmo modo como os fans brasileiros vão re-encenar o mitológico Guerra na estrelas com levada própria, deixando entrever a existência de um fan cinema latino-americano. Na perspectiva comparativa entre as duas cinematografias, vamos ter ainda um estudo sobre La Zona e Tropa de elite, sob a ótica do thriller social contemporâneo e na tecla do brutalismo e da lógica do confronto presente nos territórios de exceção apontados pelos filmes. Assim como vamos ver o modo como o cinema de ficção representa o Exército Zapatista de Libertação Nacional, do lado de lá, e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, do lado de cá e seu quase apagamento nessas dramaturgias potentes, para as quais não existe mais a sombra da interdição temática, por injunções políticas, mas que não ousam se debruçar sobre aspectos menos “espetaculares” da realidade social. Perspectiva que pode ser adotada em obras ou autores singulares, como é o caso do olhar lançado sobre o trabalho infantil pela ótica do documentário, enriquecendo uma rica tradição de militância e engajamento por uma radical mudança social. Herdeiro de um cinema direto, marcado por uma notável acuidade formal, o filme analisado se ombreia à vertente ficcional, em outras duas produções aqui demarcadas pela sua gestação durante o governo de Vicente Fox (2000/2006) e que vão lidar também com o tema da pobreza e da desigualdade social e o desencanto provocado pelos tropeços da transição à democracia, problemática herdada da preponderância do PRI mantida durante mais de setenta anos. Esta mudança de tom vai se refletir no modo de operar de um grupo de jovens realizadores que assume a cena cinematográfica, nos anos 1990, apresentando seus filmes de estreia e reconquistando uma parcela expressiva de seu público, pelo cuidado com a linguagem e pela incorporação de novos temas e formatos. Uma inquietação que já mantinha o viço da produção de autores consagrados, dos quais o livro ainda oferece bons exemplos de leitura, pontuando a perspectiva do caminho analítico empreendido pelo grupo, ao situar seus limites entre o vanguardista Jodorowsky e o pós-moderno Del Toro.

O esforço empreendido pela PRALA se revela promissor, pela mirada fora do ambiente já sacralizado do cinema hegemônico e seus “satélites estelares” e pelo mergulho na inquietação da descoberta de pontos de contato culturais entre os dois países, buscados em ricas tradições e na não menos importante intransigência contra as imposições coloniais, das quais o cinema é vertente das mais sedutoras.


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Antonio Carlos (Tunico) Amancio
Professor do Curso de cinema da UFF desde 1980. Pesquisador, roteirista e cineclubista, ele comete de vez em quando um curta metragem para não perder o pé do mundo real. Estudou no mestrado a Embrafilme, sua tese virou filme (O olhar estrangeiro), e junto com Marina Tedesco Cavalcanti organizou a coletânea "Brasil-México: aproximações cinematográficas".

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