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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
03-01-12
COLUNISTA CONVIDADO - Salete Machado Sirino


Curitiba Zero Grau, um drama.

Em uma tarde, ainda morando em Cascavel, cidade situada na região oeste do Paraná, toca o
telefone e o Eloi Pires Ferreira, me pergunta: “o que você acha do filme ter o nome Curitiba
Zero Grau?”; pensei por alguns segundos, e, em seguida, lembrei que o Eloi estava no Rio de
Janeiro e juntamente com o Altenir Silva – o Bolinha –, trabalhava em mais um tratamento no
roteiro do filme. Naquele momento, me veio à mente o filme Rio 40 Graus. Pelo que
conversamos naquela ocasião, o Eloi não teve a ideia do nome Curitiba Zero Grau como uma
referência ao filme do Nelson Pereira dos Santos, mas, para mim, essa possível metáfora foi
relevante no momento em que disse ao Eloi – diretor e idealizador do projeto –, esse é o nome
do filme! Nenhum outro nome poderia sintetizar tanto sua história, como este!

Quando me reporto à experiência que tive na Produção do Curitiba Zero Grau, os aspectos
semânticos deste longa são tão fortes que, em minha rememoração, vem, em primeiro plano, o
que este filme conta. O exercício mais prazeroso de todo processo de comandar uma produção
com uma equipe diária em torno de sessenta pessoas – e tiveram dias nos quais havia
trezentas, quinhentas pessoas envolvidas –, foi, justamente, o que filmar essa história
representava para mim, até então acostumada a produzir e dirigir filmes do gênero de aventura
e uma experiência em documentário. Agora, diante de mim, estava a possibilidade de filmar
um drama. E como filmar um drama sem entrar de verdade nas histórias que inspiraram o
roteiro desse filme?

Em uma leitura rápida do roteiro, era possível à percepção de que a história se passava no
inverno, em uma semana extremamente fria, na cidade de Curitiba. Até esse ponto, já
tínhamos claro em que espaço e em que tempo a história aconteceria. Nesse tempo e lugar, os
destinos de quatro homens de distintas classes sociais iriam se encontrar. O trânsito das
grandes metrópoles era o elemento que promoveria esse encontro. Basicamente, a história do
Curitiba Zero Grau é a representação de quatro histórias: a do Ramos, do Jaime, do Tião e a
do Márcio, vivenciadas, respectivamente, por Jackson Antunes, Edson Rocha, Lori Santos e
Diegho Kozievitch.

Que aprendizado produzir a vida desses quatro personagens!

Inicialmente prevemos seis semanas de filmagens, mas, previsão é sempre previsão! Na
verdade, para rodar Curitiba Zero Grau, foram necessárias dez semanas, tanto por questões
climáticas – naquele inverno choveu demasiadamente –, quanto pelo fato de que as
sequências exteriores em meio ao trânsito tornaram a produção complexa, ainda mais que o
Eloi queria imprimir um realismo e ao mesmo tempo mostrar uma Curitiba em suas várias
facetas. Confesso, até com toda a minha intenção de promover uma produção que fosse capaz
de representar o realismo dessas quatro histórias, que houve um momento em que eu não
entendi porque a pracinha das sequências do Márcio – o motoboy – tinha que ser do outro
lado de onde seriam rodadas determinadas sequências; para que deslocar toda equipe, e aqui
falo de um ônibus, caminhão, duas vans e seis veículos menores, com quase sessenta pessoas,
se tão próximo havia uma pracinha com as mesmas características... Mas, neste exercício de
imersão no real, entendi que o apartamento do Márcio tinha que ser no bairro exatamente
onde foi rodado, não que um estúdio não fosse capaz de compor aquele clima que deu tanto
trabalho de ser produzido, mas, porque estava naquele local a essência do filme: o realismo. E
foi esse realismo que fez com que a família de Ramos – o motorista de ônibus urbano –
vivesse em um lugar bucólico e que, para contar sua história, fosse preciso as cenas com o
ônibus biarticulado percorrendo as principais canaletas do expresso e que, em outros
momentos, Ramos percorresse o itinerário do interbairros, para representar um personagem
que conduz milhares de pessoas diariamente, e neste percurso, algumas vezes interagisse com
estas pessoas e, em outras, passasse despercebido pelo ir e vir destas.Liberação de locação nem sempre foi fácil. Se você pretende imprimir um realismo e se os
encontros destes personagens com suas famílias aconteciam, em sua maioria, à noite, era
preciso que as famílias destas locações saíssem para que as famílias fictícias pudessem ser
criadas. Se, por um lado, para representar a história de Jaime – o dono de uma revendedora de
automóveis – foi preciso uma casa em um bairro nobre, e a produção de uma loja de veículos
que teve do uniforme dos vendedores à fachada toda uma construção de marca
especificamente criada para o filme, por outro, para representar a vida de Tião – o catador de
papel – foi necessária da produção de um carrinho de coletar papel e o vivenciar deste
trabalho pelas ruas de Curitiba, até a viabilização de cenas de sua vivência em uma favela –
que, mesmo em outro contexto, por vezes, o Tião do Curitiba Zero Grau lembrou-me o
Fabiano do filme Vidas Secas –, cujas cenas resultaram em um aprendizado desde o respeitar
o horário e até em que local era possível chegar e filmar nesta favela, como, também, o
perceber que em meio a uma vida tão precária, a solidariedade, a honestidade e o
companheirismo prevalecem no seio da maior parte das famílias que vivem nesta
comunidade.

Tenho a crença de que toda equipe técnica e artística envolvida na produção desse filme, seja
da equipe de Direção, Produção, Fotografia, Arte, Montagem, Som, Música, Finalização,
entenderam a “catequese” do Eloi e, rapidamente, estavam vivendo o real dentro da ficção...
Produzir este longa mais do que construir espaços, cenografias, figurinos, enquadramentos,
luz e movimentos, foi vivenciar cada um desses elementos, que juntos construíram o discurso
fílmico do Curitiba Zero Grau. De certa maneira, sentimos o mesmo “frio” dos quatro
personagens protagonistas, como eles, vivemos as mesmas sensações provocadas pelo
elemento trânsito, conhecemos uma Curitiba “fatiada em camadas”.

Mas, depois do filme finalizado, são os quatro protagonistas e todos os outros personagens
que compõem o elenco do filme que vão contar essa história ao público e, em alguns desses
encontros entre o filme e o público, tive o privilégio de sentir como isto acontece. Na Mostra
Novos Rumos, no FestRio 2010, pude perceber a sensação do encontro da equipe com a
primeira exibição do filme. Já no Festival de La Habana, em Cuba, das duas exibições
previstas inicialmente, vieram a ocorrer cinco exibições, em cinemas com capacidade para
mais de mil lugares lotados, onde vivenciei a interação e a emoção do público cubano com o
filme. Mas esta interação também aconteceu em outros festivais – nos quais não pude estar
presente, mas tive o retorno da passagem do filme por esses espaços –, entre eles, Cinesul
Festival Iberoamericano 2011 – no qual Curitiba Zero Grau recebeu o Prêmio de Público –, e
no Festival de Cinema Brasil Japão 2011, onde houve grande empatia entre o filme e o
público das quatro cidades japonesas – Tóquio, Osaka, Quioto e Homamatsu – nas quais
aconteceu este festival em outubro de 2011.

Acredito que o que inspire a ação, por vezes sofrida, do produtor de cinema é esta
possibilidade de participar de todo processo de realização de um filme, da sua concepção à
sua exibição, e nesse caminhar perceber como aquela história, que era, em princípio, apenas
uma ideia, foi transformada num projeto que envolveu profissionais de Cascavel, Curitiba e
do Rio de Janeiro, sendo que a atuação destes profissionais, cada um em sua área, contribuiu
para que as partes de uma produção pudessem ser transformadas nesse todo que é um filme,
que agora, cumpre seu ciclo, ao chegar até o público. Sinto que, assim como aconteceu na
fase de produção, nesse contato entre o filme e o público, quase não é percebida a fronteira
entre ficção e realidade. E foi esse imbricar entre ficção e realidade que tornou tão
gratificante, para mim, a produção desse Drama.


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Salete Machado Sirino
Salete Machado Sirino é diretora, roteirista e produtora de cinema desde 1993, tendo atuado em mais de 10 filmes. Atual Presidente da AVEC – Associação de Vídeo e Cinema do Paraná e da ABD-PR – Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas – regional Paraná. Mestre em Letras pela UNIOESTE e Mestre em Educação pela UEPG, tem na articulação entre Educação, Literatura e Cinema Brasileiro o tema central de suas pesquisas no campo acadêmico. Ao lado de seu marido Talicio Sirino, da Tigre Filmes, produziu Curitiba Zero Grau.

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