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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
21-12-11
COLUNISTA CONVIDADO - Aldemar Matias


Parente, o vírus.

“O vírus é um organismo biológico com grande capacidade de automultiplicação”. Lembro bem de ter lido essa frase logo no início da pesquisa de conteúdo para o filme Parente. O documentário de 20 minutos revela o primeiro contato de populações indígenas da Amazônia com testes rápidos de sífilis e HIV em suas próprias aldeias.

Em outubro de 2010, o produtor executivo do curta-metragem, Marcos Tupinambá, me chama às pressas para uma reunião: “Tem um filme sobre saúde pra gente fazer. Amanhã vamos conversar com o pessoal”. Na manhã seguinte, já no local do encontro - a Fundação de Dermatologia Tropical e Venereologia Alfredo da Matta, em Manaus - aguardamos em uma ante-sala onde alguns funcionários conversavam. Eis que entra a responsável pelo tal pessoal (e então diretora da instituição): aproximadamente 1,50m, gargalhada alta e uma preocupação materna com cada um naquele ambiente. Pergunta pelo primo doente de uma, alerta sobre a tosse de outra e quer saber sobre a prova na faculdade de um terceiro. A médica Adele Benzaken é dessas líderes natas que atraem atenção sem fazer esforço e sabem exatamente o que passa ao seu redor.

Seguimos para a reunião com a doutora-espoleta e escutamos o relato apaixonado sobre o projeto que a mesma havia idealizado. A curiosidade aliada à minha ignorância no assunto me faziam bombardear de perguntas: “E índio tem aids?”, “Eles sabem o que é camisinha?”, “Como chega o teste rápido na aldeia?”. À medida que eu conseguia as respostas, crescia a ansiedade pra conhecer aquela realidade. Não teve imunidade que desse jeito. Fui infectado e em minutos já estava totalmente envolvido. A partir daí, iniciava-se a árdua jornada para contar uma história delicada envolvendo indígenas e doenças sexualmente transmissíveis.

A abordagem do projeto consistia numa palestra inicial em área indígena sobre educação sexual, em seguida era realizado o teste cujo resultado obtinha-se em 15 minutos e por fim promovia-se um aconselhamento individual com o enfermeiro da unidade de saúde. Propusemos seguir os mesmos passos no documentário. A primeira aldeia filmada não tinha necessariamente cara de aldeia. Belém do Solimões, no município de Tabatinga (AM), era pavimentada de concreto asfáltico e dividida por ruas. O grande número de indígenas da etnia Ticuna (cerca de 90% da população) proporcionava uma amostra do universo heterogêneo que encontraríamos. Idosos, jovens, casados, solteiros, gays – todos falando abertamente sobre sexualidade dentro do consultório médico, olhando diretamente para a câmera. Num dos depoimentos mais emblemáticos, o professor Artêmio dava um exemplo de como acontecia o contágio: “A mulher vai na cidade, aí os homens chamam, ela bebe, eles tem relação e aí ela não sabe o que vai trazer aqui pra comunidade. Isso já aconteceu uma vez, com sífilis. Não é comigo, não. É com a minha esposa”. A franqueza e autenticidade impressionavam. Se para o não-indígena, assumir que “levou um chifre” era uma vergonha, na aldeia a coisa parecia ser diferente. Ainda na mesma sequência de entrevistas, o senhor Walter explicava como acreditava acontecer o contágio de uma DST: “Quando a gente vai sentar com quem não conhece, tem que esperar o banco esfriar e dar uma limpadinha… porque é daí que vem a doença e passa pra pessoa. Não carece nem transar com a mulher nem com ninguém”.

Já numa outra realidade, na quase isolada aldeia Pixanahabi, em Roraima, os índios Yanomami receberam os visitantes documentaristas com um sorriso fácil e jeito brincalhão. Dessa forma, eles encararam a explicação dos enfermeiros sobre a transmissão do HIV com a utilização de cartazes desenhados pelos próprios profissionais de saúde. “Como que chega a DST aqui no yanomami? O yanomami vai pra cidade de Boa Vista. Aí lá ele vai ter relação com mulher branca que talvez tenha doença. Daí quando o yanomami voltar, ele vai ter relação com a mulher dele sem camisinha e pode transmitir a doença”, explicava a enfermeira Andresa da maneira mais didática possível.

De aldeia em aldeia, nossa câmera não buscava portadores do HIV e o impacto do vírus em suas vidas. Era um filme sobre vulnerabilidade e o que mais interessava era como os indígenas compreendiam aquele novo cenário apresentado a eles. Diante dos contrastes, havia algo em comum muito evidente. A paixão dos profissionais de saúde. Não interessava em que ponto da Amazônia nos encontrávamos, todos pareciam compartilhar do mesmo espírito aguerrido para executar os atendimentos. Caminhadas de horas em serras íngrimes com lama até os joelhos, viagens de dias em um barco com capacidade pra 6 pessoas ou em aviões monomotores aterrisando em grama alta - tudo fazia parte da rotina dos técnicos e enfermeiros se deslocando pra lá e pra cá numa região de proporções continentais. Se isso parecia um risco que só valia à pena encarar pela família, não à toa eles se tratavam como “parente” – termo que aprenderam com os próprios indígenas e batizou nosso documentário.

Hoje, o projeto iniciado no Amazonas e em Roraima foi abraçado pelo Ministério da Saúde e implantado no resto do país. A pesquisadora Adele, mais espoleta do que nunca, viaja o Brasil capacitando os profissionais recém integrados ao projeto. Já o documentário, é exibido em cada treinamento infectando esses novos parentes com um vírus que não para de se multiplicar.

Aldemar Matias
diretor de “Parente”

Link: www.vimeo.com/aldemarmatias/parente


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Aldemar Matias
Nascido e criado em Manaus – no centro da floresta amazônica – Aldemar Matias começou sua carreira como repórter de TV exibindo os contrastes culturais da região em um programa semanal no canal Amazonsat, onde entrevistou do cineasta James Cameron à mãe do líder seringueiro Chico Mendes, Cecília. Na TV Cultura-AM, deu sequência ao formato apresentando a série “Nova Amazônia”. Formado em Comunicação Social na Universidade Federal do Amazonas, participou da oficina de documentários da Escuela Internacional de San Antonio de Los Baños, em Cuba. Recentemente, dirigiu o curta “Parente” – premiado no Amazonas Film Festival como melhor curta local pelo júri, melhor fotografia e com o prêmio do público.

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