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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
24-11-11
COLUNISTA CONVIDADO - Eduardo Souza Lima


Tropa de Elite

Disseram que o Capitão Nascimento era fascista, mas eu acho que mereci quando ele me deu na cara e me chamou de maconheiro vagabundo. Eu lá deveria esperar respeito ou consideração de quem é obrigado a botar o seu na reta porque não mexo o meu nem para defender um simples luxo? Lembro-me que, quando trabalhava no “Globo”, volta e meia a gente tentava emplacar uma matéria sobre a descriminalização das drogas, mas raramente encontrava alguém disposto a se comprometer - papai não quer artista maconheiro no baile de debutante da filhinha. A galera quer mais é ver “Cidade de Deus”; curtir o seu faroestezinho e posar de cidadão consciente sem que nenhum subalterno cometa a indelicadeza de lhe apontar o dedo e dizer “a culpa também é sua”. Alguém já se tocou que o Capitão Nascimento é vilão no asfalto e herói no morro?

Nascimento devia estar se sentindo tão traído quanto o Dunga, por ser criticado por fazer justamente o que se esperava dele. Costa-Gavras deu a dica ao conceder o Urso de Ouro do Festival de Berlim ao primeiro filme e o diretor José Padilha fez de “Tropa de elite 2: o inimigo agora é outro” um thriller político. É o gênero ideal para a prática do cinema-denúncia e o mais palatável para o homem de bem esclarecido que bate no peito pra dizer que paga os seus impostos - o que seria até um grande feito, não fossem os mesmos descontados na fonte ou viessem embutidos no preço. Agora tenente-coronel, Nascimento vai depor na Alerj e diz em público o que falamos numa roda de amigos: que a PM do Rio de Janeiro tem que acabar, que 99% dos políticos da casa deveria estar na cadeia e que “neste estado, o chefe de polícia é corrupto, o governador é corrupto!”. Satisfaz os anseios da classe média elegendo “o sistema” como o o tal “outro inimigo” do subtítulo. E, desta vez, lhe oferece uma dose de catarse também, quando dá um sacode federal num político corrupto - no primeiro filme, só rolava pros menos favorecidos. Será que vão chamá-lo de fascista por causa disso?

“Tropa de elite 2” é didático como permite o gênero: a grande imprensa é conivente, não basta acabar com o tráfico para dar fim à violência e à criminalidade e não há crime organizado numa sociedade desorganizada - faltou falar da iniciativa privada, mas desconfio que isso ficou para o III. Entre os personagens, há dois nitidamente inspirados nos deputados estaduais mais votados nas últimas eleições, Marcelo Freixo (um cidadão que resolveu se mexer e está pagando caro por isso) e Wagner Montes (embora o próprio Freixo garanta que o “Chicote do Povo” vota com a galera do bem na Alerj), e o governador Gelino poderia ser Anthony Garotinho (até por causa da época em que se passam determinados fatos e porque o seu secretário de Segurança Pública se assemelha bastante ao Álvaro Lins), mas lembra muito também o recém-reeleito Sérgio Cabral - embora este jure de pés juntos que não tem nenhuma ligação com as milícias. É um filme que só poderia ter sido feito por dois playboyzinhos da Zona Sul (Padilha e o produtor Marcos Prado, nenhum demérito nisso, pelo contrário), gente com costas quentes.

Não se trata de defender os métodos: o Capitão Nascimento pode não ser o herói ideal, mas é o herói de ficção possível para o Brasil de hoje - não à toa, já povoa o imaginário popular. Um herói carregado de contradições num mundo no qual as contradições são apenas aparentes, onde o que vale é a luta pela sobrevivência e o pragmatismo - como bem demonstra o coronel Fábio, ex-01. O herói de uma sociedade para lá de injusta, onde o cidadão consciente acha que fazer a sua parte é apenas respeitar o sinal vermelho. Como se diz por aí, um produto do meio.


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Eduardo Souza Lima
Eduardo Souza Lima é jornalista, crítico de cinema e cineasta. Dirigiu o longa-metragem "Rio de Jano" e edita a revista online Zé Pereira. http://vimeo.com/eduardosouzalima www.revistazepereira.com.br

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