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25-10-11
COLUNISTA CONVIDADO - Eduardo Nunes


A Questão da Criação de uma Imagem/Som em Sudoeste

Quando começamos a pensar uma história, surgem logo imagens que ilustram e dão forma as palavras, pessoas, lugares, acontecimentos... Essas imagens surgem de forma expontânea, até mesmo contra a nossa vontade. Pois existe a necessidade de vincular aquelas ideias iniciais a uma forma, uma referência visual. É como quando lemos um livro: as palavras e frases transformam-se em personagens que assumem formas nítidas e muito próprias. Mas a grande questão é que, cada leitor, através de suas referências muito particulares, cria a sua própria imagem do livro que lê. Uma imagem totalmente diferente de qualquer outra pessoa, por mais próxima que seja. Não por acaso, é sempre grande a decepção quando assistimos a adaptação de um livro que gostamos para o cinema.

Portanto, como fazer quando surge uma história que passa num universo próprio, que está viva e nítida em sua cabeça por dez anos, mas existe a necessidade de transformar isso em um filme?

Acredito que nenhum realizador, por maior que seja o controle de todo o processo do filme, nunca conseguirá transpor a imagem/ideia original para uma imagem/filme que corresponda fielmente aquela ideia original. Quando contamos uma história através de um filme dividimos a concretização da imagem/som com um grupo de pessoas (atores, arte, fotografia, produção, som, etc...), e cada uma dessas pessoas tem uma leitura própria daquelas palavras que formam o roteiro e a ideia original.

Numa concepção radical de um “filme de autor puro” haveria uma máquina, ligada a cabeça do realizador, e para realizar o filme bastaria pensar toda a história do filme (como num sonho), e esta ideia seria concretizada em imagem/som pela máquina. Direto do pensamento para a tela. Mas a grande questão é que o cinema tem, antes de tudo, como grande qualidade o registro da realidade, com todas as suas imperfeições e situações únicas: um ator que fala de uma forma diferente do imaginado, uma luz que entra pela janela, um som de um pássaro que invade uma cena, etc... e isso traz a grande riqueza de um filme. Da mesma forma, a leitura de uma primeira ideia, por diferentes pessoas que realizarão um filme, traz o que o cinema pode ter de mais valioso: uma verdadeira criação coletiva. Onde cada leitura, traz vários “mundos próprios” de figurino, cenário, luz, som, música que, de alguma forma, se complementam.

Entendo a história do SUDOESTE como uma fábula. Onde a realidade possui as regras de um universo próprio. Um universo que pode reinventar uma geaografia, um tempo e uma nova lógica. Mas como conseguir um registro de imagem e som que transporte o espectador a este universo?

O que a equipe do filme compreendeu é que o mundo criado pelo filme precisava parecer real, no sentido em que deve possuir sua própria lógica: com sua geografia, cultura e tempo.

A primeira coisa que precisaríamos fazer é distanciar a história da realidade como conhecemos, e assumir como uma história contada. Hoje, a cor no cinema está associada a um registro da realidade, colorida como a percebemos. O distaciamento de uma realidade colorida foi um dos motivos pela opção em preto e branco, além de evitar as cores quentes do lugar, que davam uma alegria incompatível com o filme. A escolha de uma janela incomum (1:3,66) dá ao filme uma grande horizontalidade, proporcinando (como o da personagem Clarice) um olhar único sobre tudo que acontece, além de permitir um enquadramento mais orgânico com a locação, caracterizada apenas por elementos horizontais.

A locação em Monte Alto (Arraial do Cabo), uma vila de salineiros abandonada há 40 anos, dá um aspecto atemporal na história, não existe uma referência exterior que possa localizar o tempo. O figurino, trabalhado com roupas contruídas através de tecidos recuperados, também colabora para criar este universo próprio. Também produz uma atmosfera específica a presença do som do vento, em todo o filme, nas mais de diversas formas, e o canto de pássaros caracterizando cada um dos lugares.

Enfim, acredito hoje, que a única forma de realizar um filme verdadeiramente autoral, é dividir o processo de criação. Fazer de cada etapa de realização um momento para reinvetar a ideia original, e fazer com que cada pessoa envolvida na criação desta obra, seja – de fato – criadora deste unverso único.


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Eduardo Nunes
Eduardo Nunes nasceu em 1969 em Niterói. Formado em cinema na UFF, dirigiu 5 curtas: SOPRO (1994, co-dirigido por Flávio Zettel), TERRAL (1995), A INFÂNCIA DA MULHER BARBADA (1996), TROPEL (2000) e REMINISCÊNCIA (2001). Com esses filmes, ganhou mais de 40 prêmios em Festivais como Brasília, Gramado, Rotterdam, Berlin, Clermont-Ferrand, Biarritz e Havana. Atualmente, prepara o seu segundo longa metragem, adaptando A MORTE FELIZ de Albert Camus.

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