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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
06-10-11
COLUNISTA CONVIDADO - Celso Sabadin


O longa metragem completa 100 anos. E o que o 3D tem a ver com isso?

Uma curiosidade bem interessante sobre a História do Cinema é que os filmes nasceram - todos - curtas-metragens. Foram necessários uns bons oito ou nove anos para que o longa-metragem, como o conhecemos hoje, virasse “moda” no cinema. E, na verdade, o longa não nasceu como uma aspiração artística, mas sim como uma maneira de aumentar o valor do ingresso nas bilheterias. Filmes mais longos poderiam custar mais e, assim, os cinéfilos pobres, que pagavam pouco por um ingresso, poderiam ser, digamos assim... “enxotados”. Naquela época, começo do século 20, o Cinema era visto apenas por pessoas mais simples, operários, trabalhadores, analfabetos (os filmes eram mudos), e isso incomodava muito a classe média. Ter um cineminha perto de casa era sinônimo de aglomeração de pessoas de baixa renda.

“Há qualquer coisas nos filmes que parece tornar os homens e as mulheres menos humanos e mais animais”. A frase está no livro The Sins of Hollywood (Os pecados de Hollywood) publicado em 1922. Autor? Anônimo.

É impossível precisar o quanto deste preconceito foi motivado por reais convicções morais dos segmentos conservadores da sociedade, ou por questões de apelo econômico. A burguesia moralista estava mesmo disposta a enterrar a indústria do cinema, ou ela simplesmente não suportava ver aqueles milhões de dólares escorrendo por mãos de cineastas estrangeiros e astros vindos das classes baixas? Não era uma ofensa aqueles milhares de galpões empoeirados exibindo curtas-metragens pelos EUA? Juntando desempregados, analfabetos, imigrantes, mulheres desocupadas? Convidando crianças a matar aulas? E pior: eles estavam em todos os lugares, invadindo pacificamente regiões de classe média de todas as cidades americanas. Por apenas cinco centavos.

Em 1909 o Supremo Tribunal de Illinois deu ganho de causa à polícia de Chicago, que desde 1907 já detinha o poder de cortar cenas de homicídios, roubos e seqüestros, ou mesmo de proibir a exibição de filmes inteiros. O juiz confirmou este poder policial, alegando que o decreto “aplica-se a estabelecimentos que cobram cinco e dez centavos pelo ingresso (...) e que em virtude do preço baixo são freqüentados e procurados por grande número de crianças, assim como por pessoas de recursos limitados, que não assistem às produções de peças e dramas nos teatros comuns. O seu público, portanto, inclui as classes cuja idade, educação e situação de vida lhes dá direito à proteção contra a má influência de representações obcenas e imorais”. Trocando em miúdos, como os “poeiras”, como eram chamados, são freqüentados por pobres e menores, a polícia decide quais filmes podem ser exibidos.

Em 1915, o Supremo Tribunal Federal norte-americano reconheceu o direito de censura cinematográfica aos estados da Pensilvânia, Ohio e Kansas, conseqüentemente abrindo precedente para os demais estados que desejassem estabelecer seus departamentos de censura. Várias vozes se levantaram contra os filmes, desde autoridades religiosas, psicólogos e até oftalmologistas que prestavam depoimentos sobre os malefícios da projeção para os olhos das crianças.

Engrossando o coro, as prefeituras tinham sérias dificuldades em fiscalizar - e conseqüentemente cobrar impostos - estes estabelecimentos que muitas vezes não passavam de simples tendas e barracões. Mas tendas e barracões que faturavam muito dinheiro.

Em dezembro de 1908, em Nova York, as casas de exibição, acusadas de imoralidade, foram fechadas, mas reabertas logo após aprovado o aumento das taxas de funcionamento. Ou seja, arrecadando-se mais impostos, as tendas deixavam de ser imorais. A verdade é que o moralismo da sociedade conservadora encontrou eco na ganância do poder público, e como resultado, a atividade cinematográfica passou a ser atacada de todos os lados. Era impossível, porém, desmontar uma indústria tão poderosa e lucrativa. E tampouco havia este interesse. As autoridades não estavam de fato preocupadas com a influência que cenas de assaltos ou de permissividades sensuais pudessem ou não provocar nas crianças. O que não era mais viável, naquele momento, era se permitir que todos aqueles milhões de dólares gerados pela indústria saíssem do controle dos poderosos.

Por isso, não é por acaso que o primeiro longa-metragem produzido nos Estados Unidos - Oliver Twist - foi lançado em 1912, em meio a diversas discussões sobre a censura. A idéia era eliminar as classes baixas das salas de exibição, através da cobrança de ingressos cada vez mais caros. Filmes mais longos proporcionariam sessões a preços maiores, que por sua vez atrairiam a burguesia para os filmes. Com o apoio da classe média e o banimento do proletariado, os ânimos moralistas seriam controlados e os produtores teriam um pouco mais de paz. Da mesma forma, atraindo um público mais exigente, as salas teriam de ser reformadas, tornando-se mais confortáveis, melhor estabelecidas enquanto atividade comercial e - conseqüentemente - melhor pagadoras de taxas e impostos.

Os Estados Unidos - donos do mercado mundial - saem atrás de França, Austrália, Dinamarca, Itália, Espanha, Rússia e outros países na produção de longas-metragens, não por questões técnicas, mas sim mercadológicas. Produzir filmes longos veio atender não a uma necessidade estética e/ou artística dos cineastas, mas sim a uma imposição da burguesia. A partir de 1912, a indústria do cinema passa a direcionar sua produção para a classe média, cuspindo em ritmo frenético no prato em que vinha comendo desde o século passado. Os dois longa-metragens produzidos nos Estados Unidos naquele ano logo se transformaram em uma dúzia, no ano seguinte, em 212 em 1914, 419 em 1915 e 677 em 16. Missão cumprida. Segundo o historiador Robert Sklar, nos anos 20, “toda grande cidade e a maioria das cidades de tamanho médio se envaideciam de possuir pelo menos um suntuoso palácio do cinema novinho em folha. Na calçada, um porteiro de sobrecasaca e luvas brancas esperava para abrir a porta dos carros que chegavam e mostrar aos passageiros o caminho da bilheteria. Se estivesse chovendo, ele teria um guarda-chuva aberto sobre a cabeça dos recém-chegados; se estivesse nevando, outro porteiro, no saguão, se precipitaria para escovar os capotes cheios de flocos de Neve (...). O recém-chegado percorria longos e ornamentados corredores, aquitetado pela atmosfera de templo egípcio ou de palácio barroco”.

A tendência era mundial. Em 1911, Paris vê a luxuosa inauguração do Gaumont Palace, gigantesco cinema para 5.000 espectadores. No mesmo ano, em Berlim, é inaugurado o Alhambra Platz, para 2.000 pessoas, a mesma capacidade do Cine Panellinion, aberto em Atenas, também naquele ano. E Copenhague, em 1912, ganha o seu Palads Teatret, com 3.000 assentos.
Entre 1912 e 1927, são rodados nos Estados Unidos nada menos que 9.045 longas-metragens, pouco mais de 1,5 por dia, em média. Estava decretada a morte dos “poeiras” e de seus proletários freqüentadores.

Mas... por que eu estou contando tudo isso? Porque, como dizem os historiadores, a História é sempre cíclica. Tudo se repete. O mesmo processo que aconteceu na virada do século 19 para o século 20 acontece também na virada do século 20 para o 21. Os cinemas de rua, mais baratos, deixaram de existir, abrindo espaço para os “templos” dos Shopping Centers. A classe média baixa brasileira fugiu do cinema, e hoje compra filmes piratas. O ingresso, que no Brasil sempre custou de 3 a 4 dólares, hoje está na casa dos 10, totalmente fora dos nossos padrões de consumo.

Agora, chegam também o Imax e o 3D, inovações importantes, é claro, mas que também ajudam a elitizar cada vez mais o cinema, com preços cada vez maiores. Como se sabe, há uma sala de cinema em São Paulo que cobra mais de 50 reais o ingresso. E a Angelina Jolie não sai da tela pra beijar o consumidor.

Nada contra o conforto, nada contra os shoppings e os preços altos. Mas e outro lado da moeda? E os cinemas de bairro, populares? E as salas de rua, que não obrigavam o público a entrar nos shoppings para ver um filme? E o público que não pode pagar 20 reais um ingresso? Por que toda esta exclusão cinematográfica e cultural?

Atualmente, dos 190 milhões de brasileiros, apenas 10 milhões vão ao cinema. Nada menos que 180 milhões de brasileiras nunca, jamais vão ver um filme no Cinema. Motivos? É caro. É longe. Não tem salas nas cidades menores. Um dos resultados mais nefastos desta exclusão é a escalada da pirataria criminosa e predadora.

Todos perdemos com isso. Simplesmente porque o mercado repete os mesmos erros de 100 anos atrás.

Vamos falar mais disso em 2012, isto é, se o mundo não acabar antes, como apregoam alguns.


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Celso Sabadin
Jornalista especializado em Cinema, professor, autor dos livros “Vocês Ainda Não Ouviram Nada – A Barulhenta História do Cinema Mudo”, “Éramos Apenas Paulistas” e “O Cinema Como Ofício”. Atualmente prepara seu primeiro longa como roteirista e diretor, o documentário “Mazza.doc”.

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