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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
06-09-11
COLUNISTA CONVIDADO - Manaíra Carneiro


O cinema da galera

Eu sou da era do vídeo, da televisão e da internet. Cinema e teatro, muito pouco. Eu quero compartilhar meu mundo. Minha galera produz e assiste a filmes de formas outras que não são contabilizadas pela Ancine.

As primeiras produções da minha galera foram feitas com aquelas câmeras mini-dv PD 170, achávamos o máximo, hoje em dia , acho que ela nem existe mais, e isso faz cerca de 8 anos. Um dia conseguimos um patrocínio da Unimed de 40 mil para fazermos um longa metragem. Imagine 15 pessoas (era a nossa equipe , na época), vivendo numa casa de 2 quartos dentro do conjunto habitacional “César Maia”, que fica em Vargem Grande, durante 2 semanas, tentando fazer um longa metragem futurista com direito a tiros e revólveres cenográficos, Imaginou? Pois bem, ainda não acabou. Para piorar, não tínhamos experiência com longa metragem, então o plano de filmagem não dava certo, a verba da comida acabou três dias antes do fim das filmagens e nenhum de nós tínhamos padrinhos ou pais ricos, um carro ou apartamento que poderia terminar de pagar o filme, ou seja, passamos muito tempo filmando com fome e cansaço.

Esse tipo de produção feita na “raça”, está acontecendo em todo o país num movimento que perdura há mais de 10 anos. Essa forma de fazer filme pode indicar um novo modelo de cadeia produtiva cinematográfica. Há muita gente produzindo num sistema de “brodagem”, de troca entre amigos; estou falando é que estão pensando por aí em outra lógica de preparação, produção e exibição dos filmes, é uma galera que previlegia o compartilhamento de informações de qualquer natureza, como falei na primeira linha desse texto, é a galera da internet, aquela que não entende o sentido de proibir a conversão para MP3 do CD de música que comprou ou de fazer dowload de filmes que não viu e disponibilizar aqueles que já viu gratuitamente. Essa lógica de pensamento não é atendida pelo mercado centralizador, porém é um caminho sem volta para a democratização da informação e o acesso aos bens culturais. Quem acha que está perdendo dinheiro com donwload devia é ver esse movimento como uma grande oportunidade de fazer com que o seu filme encontre o seu público onde quer que ele esteja.

Fazendo parte de um novo circuito de exibição de filmes, temos um grande número de cineclubes que fazem suas exibições não somente para discutir o filme no fim da sessão ou com o intuito de trazer imagens raras ao seu público como era o objetivo dos primeiros cineclubes, numa época que se tinha um cinema, ás vezes mais, por bairro, atualmente, o cineclube é lugar de se ver filmes, seja ele qual for, pois atualmente, não basta atravessar uma rua para ir ao cinema, tem de ir para a capital mais próxima porque apenas 8% dos municípios brasileiros têm salas de cinema, e pagar uns 18 contos ou mais para assisti-lo.

Hoje, o cineclube está na função de aproximar pessoas da linguagem cinematográfica, o cuidado é para que nossa comunidade ao redor crie sentidos próprios para as imagens que estão vendo, que ela crie também suas próprias imagens, que ela saiba falar através das imagens. O cinema e o cineclubismo para minha galera e muitas outras é o lugar da briga por significados, é o lugar da identidade, da voz e da pluralidade. Estamos exercendo uma atividade política, engana-se quem acha o contrário. Se o povo está aprendendo a fazer cinema, o cinema brasileiro ainda está aprendendo a ser de seu povo.


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Manaíra Carneiro
É graduanda em Estudos de Mídia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Roteirizou e dirigiu cinco curtas-metragens antes de dirigir o episódio "Fonte de Renda" dentro do longa-metragem "5x Favela - Agora por nós mesmos" produzido por Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães. Faz parte da Oscip Cidadela - Arte, cultura e cidadania.

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