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13-07-11
COLUNISTA CONVIDADO - Carlos Alberto Mattos


Nelson intérprete do Brasil

O cinema tem a virtude de condensar e relacionar expressões fotográficas, literárias, musicais e cênicas capazes de dar conta de contextos sociais com grande potência. É a arte congregante por excelência, dada a sua liberdade de se mover no tempo e no espaço sem perder o contato com o mundo físico. O cinema brasileiro, para o bem ou para o mal, mantém um forte vínculo com a realidade e o imaginário nacionais.

Um trio áureo se destaca na filmografia brasileira quando se trata de verificar a incidência da ideia do nacional. Ele é composto por Humberto Mauro (1897-1983), Glauber Rocha (1939-1981) e Nelson Pereira dos Santos. Numa síntese um tanto ligeira, poderíamos classificar Mauro como o “fundador”, que criou e sedimentou uma visão lírica e afetuosa da paisagem, do homem e de um certo sentimento brasileiros no cinema. Rocha seria o “revolucionário”, com sua proposta de um Brasil mítico, convulsionado e utópico.

Nelson, por sua vez, seria o “etnógrafo” que tem vasculhado a aldeia em todos os seus recantos à procura da imagem do povo brasileiro e seus rebatimentos. Há, em sua obra de 20 longas-metragens, diversos curtas e trabalhos para a TV, um constante entrecruzamento de questões ligadas à nacionalidade, raça, mitos, representações do popular, diferenças e conflitos sociais. Ali encontramos todos os traços da formação brasileira: o branco europeu, o índio e o negro. Temos o Brasil das cidades, das favelas, do sertão, do litoral e do planalto central. O país está representado pelo ponto de vista histórico e pelo ângulo da contemporaneidade entre as décadas de 1950 e 2000.

O mais reconhecido cineasta vivo do país, NPS tem uma obra que redefine o cinema nacional moderno a partir de obras-primas como Rio 40 Graus, Vidas Secas e Memórias do Cárcere. Por suas notáveis adaptações literárias, foi o primeiro diretor de cinema a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Não foi por acaso que Nelson transpôs para as telas obras fundamentais de Graciliano Ramos, Jorge Amado, Guimarães Rosa e Machado de Assis, além de realizar documentários sobre Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda e Tom Jobim. Esse intenso diálogo com autores fundamentais para a compreensão do Brasil, mais as suas próprias contribuições e interpretações, fazem do cineasta, também ele, um intérprete do país e um construtor de nacionalidade. Eis talvez a dimensão maior de seu trabalho.

(Trecho inicial de um ensaio a ser publicado em livro)


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Carlos Alberto Mattos
Jornalista, critico e pesquisador de cinema, escritor e redator da Revista "Filme Cultura". Já participou como jurado nos Festivais de Veneza, Berlim, Moscou e Amsterdã. Escreveu livros sobre Walter Lima Junior, Eduardo Coutinho, Carla Camurati, Jorge Bodanski e Maurice Capovilla.

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