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Natália Lage entrevista o documentarista, roteirista, diretor e montador Pedro Asbeg.
01-07-11
COLUNISTA CONVIDADO - Marco Altberg


Gustavo Dahl Bravo Guerreiro

Conheci Gustavo no Carnaval de 1972 quando alguns filmes se cruzaram na avenida Presidente Vargas no desfile das escolas de samba cariocas. Eram equipes dos filmes Carnaval Amor e Sonhos, do Paulo César Sarraceni, que marcou minha estréia em filmes de longa (fiz as fotos de cena - still), Quando o Carnaval Chegar, do Carlos Diegues (que mais tarde eu viria a participar da equipe como continuista) e um demo de um filme do Gustavo Dahl, me parece com a Leila Diniz e Ana Maria Magalhães. Filme este que não foi realizado.

Já tinha assistido ao filme Bravo Guerreiro, que fazia parte de minha formação no cinema. Gustavo tinha um jeitão de índio sulista, cabelos longos e corpulento. Era curioso ver três equipes diferentes de cinema evoluindo em meio ao Carnaval.

O cinema era assim, uma espécie de grande família onde todos sabiam um pouco uns dos outros. O que cada um estava fazendo. Existia uma espécie de magnetismo coletivo. E assim eu ia tendo notícias do Gustavo antes mesmo de conhecê-lo. Sabia que além de dirigir, montava, escrevia e mais adiante veio a tona a vocação política que fez a trajetória de representação dos diretores, produtores, distribuidoras e exibidores de cinema.

Gustavo percorreu a cadeia produtiva do cinema da criação a comercialização, passando pelo setor publico. Foi completo nisso como ninguém.

Me lembro da comoção que foi o enterro do Glauber Rocha, morto muito jovem ainda, o discurso inspirado e inflamado de Gustavo, diante do túmulo do amigo. Essa imagem me veio mais forte ao ver no velório do Gustavo, a profunda tristeza de Ava Rocha, filha de Glauber se unindo a dor dos filhos de Gustavo. Era uma edição de cenas de perdas de igual valor para o nosso cinema.

Gustavo junto com Sarraceni e Joaquim Pedro de Andrade, tiveram uma passagem pela Itália. Acompanhei a atuação do Gustavo frente a distribuidora da Embrafilme que ele criou na gestão Roberto Farias. Foi a época áurea do nosso cinema quando os nossos filmes, vários, figuravam nas maiores bilheterias entre todos os filmes lançados. Gustavo foi o responsável por uma distribuidora forte que se impôs no mercado. Dessa distribuidora saíram muitos quadros que hoje estão a frente de distribuidoras nacionais e internacionais.

Como diretor de filmes, fez poucos. Além do mítico Bravo Guerreiro, Uirá, um índio em busca de deus, filme minimalista, seco e cortante, expondo com elegância a questão indígena brasileira a partir do texto de Darcy Ribeiro. Ainda na ficção, Tensão no Rio, filme que quase participei na produção, que retoma o fio de Terra em Transe. Gustavo dirigiu alguns documentários também.

Mas sua vocação era a formulação de políticas para o audiovisual. Depois da Embrafilme, trabalhou para a Federação dos Exibidores, trafegando com facilidade de uma ponta a outra do cinema. Foi ainda presidente do extinto Concine e chegou a desenvolver propostas durante a transicão para o Governo Collor. Infelizmente o novo governo escolheu a banda podre pra tocar o cinema e a cultura e deu no que deu. Antes porém, Gustavo, em um artigo, entre muitos que escreveu, alertava com sabedoria que o Presidente que entrava estava sendo empurrado para a direita.

Gustavo era assim, aberto para o novo, para as novas tendências. Assim ele liderou o processo que criou simultaneamente o Congresso Brasileiro de Cinema e do Gedic, grupo trabalho ligado a presidência da republica já no governo Fernando Henrique, que resultou na criação da Ancine da qual ele foi seu primeiro presidente. Recentemente pude perceber seu interesse em TV e em Novas Mídias. O cinema brasileiro deve muito a dedicação do Gustavo pelo bem comum.

Nos últimos tempos esteve à frente do Centro Tecnico Audiovisual do Ministério da Cultura, mas acredito que sua atuação poderia ter se estendido também a outras áreas do nosso audiovisual, onde certamente faria a diferença.

Gustavo partiu deixando a certeza que foi cedo e podia fazer muito mais.

Marco Altberg


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Marco Altberg
Um dos mais ativos diretores em produção independente para tv, responsável pela direção de séries de ficção, séries documentais e programas educativos. Há 16 anos, está à frente da direção do programa Revista do Cinema Brasileiro.

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